
Entre estudiosos da história restam poucas dúvidas sobre a existência, nos Estados Unidos, de um governo paralelo, invisível, bem sucedido, e verdadeiramente responsável pelas intermináveis incursões de todos os matizes na geopolítica mundial e, desde o início do século XX, nos países periféricos em busca do domínio político-econômico.
Dwight Eisenhower, no discurso de despedida da presidência, exercida entre 1953 e 1961, fez uma advertência profética sobre os riscos advindos da atuação do “complexo industrial-militar”:
“(...) precisamos estar atentos para evitar a conquista de uma influência indevida (...) pelo complexo industrial-militar (...) o potencial para o crescimento desastroso e o abuso de poder existe e vai continuar a existir.”
Aproveitando o mote cunhado por Eisenhower, o jornalista norte-americano Fred J. Cook lançou na época o “best-seller”: O Estado Militarista, onde pesquisa e disseca o tema levantado pelo ex-presidente, abrangendo inclusive o governo deste.
O consagrado escritor Gore Vidal, por seu turno, já chegou a denunciar o que ocorre nos EUA: “O país não é governado pelo presidente, e sim pelas grandes corporações”.
Apesar destas e de outras muitas evidências, paira um silêncio conivente, inquebrantável, nos veículos noticiosos sobre essa candente questão.
Nada obstante, há, pelo mundo, uma plêiade de intelectuais muito preocupados com a danosa atuação, para todo o planeta, desse “governo invisível” norte-americano.
O sociólogo René Armand Dreifuss, na obra de pesquisa histórica: A Internacional Capitalista – Estratégias e Táticas do Empresariado Transnacional/1918-1986, desvenda certos acontecimentos no jogo do poder universal, especialmente no seio da aristocracia norte-americana. As informações trazidas a lume por Dreifuss reforçam o juízo de que nos EUA de fato ponteia, incontrastável, um “governo invisível”. O surgimento desse pantagruélico gigante, acometido de insaciável fome de riqueza e poder, ocorre logo após o término da Primeira Guerra Mundial, em coincidência com a criação do Council on Foreign Relations-CFR (Conselho das Relações Exteriores), seguido, anos depois, pela fundação do Committee for Economic Development-CED (Comitê para o Desenvolvimento Econômico).
À primeira vista, essas duas entidades privadas - seguramente a parte dominante do governo virtual - podem levar à crença de ser órgãos públicos, em consequência de suas denominações estarem mais condizentes com as de instituições oficiais (talvez até propositadamente).
Vamos então ao relato de Dreifuss, na sua obra já citada:
“O Council on Foreign Relations ou Conselho das Relações Exteriores (...) existia desde 1918, vinculado a outra organização de elite, a Century Association de Nova Iorque. Três anos mais tarde, o Council on Foreign Relations, Inc. começava a funcionar, com o objetivo de “providenciar reflexão contínua sobre os aspectos internacionais dos problemas políticos, econômicos e financeiros dos Estados Unidos”. E se autodefinia como um “grupo de pessoas preocupadas (...) em desenvolver, refletidamente, diretrizes de política exterior dos Estados Unidos”.
Daí, pode-se inferir, pelas regras básicas definidas pelo Conselho para si, o seu decidido propósito de intervenção na política externa norte-americana. A respeito do imenso poder do capital financeiro, “Walter Rathenau, Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, 1923”, fez a seguinte declaração, chocante e válida também para o futuro: “Como membro do clube dos capitalistas, posso dizer que 300 homens estreitamente ligados entre si controlam o destino econômico e político do Ocidente”. Não se esqueça que Rathenau era Chanceler de um país arruinado por uma guerra devastadora, que só havia terminado há escassos cinco anos. Além do mais, ele deixou evidente o fato de estar “estreitamente ligado” aos “capitalistas” dos países vencedores da guerra, que eram, sem dúvida, os que detinham o maior quinhão do poder no Ocidente, como é óbvio.
“O Council on Foreign Relations (CFR), panteão do mundo dos negócios da política, das finanças, da universidade e da imprensa norte-americana foi um verdadeiro precursor das elites orgânicas, como uma das primeiras e mais significativas tentativas de reunir industriais, banqueiros, militares e burocratas de Estado, intelectuais e figuras de destaque da mídia num novo formato político e intelectual, que David Rockefeller chamaria de “casamento de cérebros e dinheiro” e Joseph Kraft denominaria de “Escola para Estadistas”.”
“O CFR alcançaria os mais altos patamares da política, a partir dos anos 40, desenvolvendo seus importantes “War and Peace Studies”. Esses “Estudos de Guerra e Paz” realizados antes da participação aberta dos EUA na Segunda Guerra Mundial tinham como finalidade viabilizar a grande estratégia (política, social, econômica e militar) que conduziria à vitória dos Aliados sobre as potências do Eixo. Mas o CFR ia além disso: visualizava as questões que diziam respeito à nova ordem a ser construída no pós-guerra. Esses “Estudos de Guerra e Paz” foram de singular importância para delinear o almejado “século norte-americano”, que pretendia adequar a ordem política e econômica internacional às necessidades das grandes indústrias e bancos vinculados ao CFR. O pretendido reordenamento político-econômico propiciaria e exigiria do Estado norte-americano o papel de uma potência hegemônica central na rearticulação de um sistema global emergente.”
(...) Já nessa época, o CFR tinha praticamente fundido sua equipe com a do Comitê Especial de Planejamento do Departamento de Estado, sob o nome de “Comitê Assessor para a Política Externa do Pós-Guerra”, no qual tinha a maioria absoluta dos participantes com poder de decisão.
Para o CFR, os Estados Unidos deveriam “aceitar a responsabilidade mundial” já que “a medida da nossa vitória será a medida da nossa dominação após a vitória”. Isaiah Bowman, um dos diretores do CFR, também defendia uma conceituação ampliada do que seriam os “interesses da segurança americana”, para poder lidar com áreas “estrategicamente necessárias em termos de controle mundial”.
Em 1941, um grupo de industriais de excepcional formação intelectual e profissional (empresários e tecno-empresários), além de membros da comunidade acadêmica - muitos deles já vinculados ao CFR e ao Business Council - iniciaram uma “experiência inédita nos anais do capitalismo norte-americano”.
Formalizaram, em 1942, o Committee for Economic Development-CED (Comitê para o Desenvolvimento Econômico) “que ao longo dos últimos quarenta anos desempenhou papel fundamental, não somente como uma das elites orgânicas mais poderosas dos EUA”, mas também como inspiração e pivô na articulação transnacional de organizações congêneres” [Como foi o caso do IPES, no Brasil. Só que, enquanto o CED se propunha à dominação ianque pelo mundo, o IPES planejava um golpe de Estado em consonância com a própria elite empresarial do CFR/CED, para “conquistar” o alinhamento automático com os EUA].
“Foi com um discurso desse porte, de evidentes pretensões hegemônicas, que o CED se mostrou capaz de projetar, perante o público e o próprio governo, a sua imagem de “porta-voz dos interesses gerais do capital apresentados como sendo equivalentes aos interesses nacionais. Das reuniões de fim de semana (...) surgiram, entre outras iniciativas de peso, (...) certos pontos fundamentais do futuro Plano Marshall - para o qual o CED preparou o terreno e elaborou as diretrizes básicas, junto com o CFR (...)”. Também teve (...) “uma participação crucial na definição do marco do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (em conjunto com o CFR). (...)
O CFR, por seu lado, ampliou, modificou e adequou suas funções ao papel hegemônico dos Estados Unidos, consolidando seu papel privilegiado na formulação de opções político-estratégicas para as diretrizes da política exterior norte-americana. O CFR foi, de fato, extremamente eficaz como arquiteto da Pax Americana do pós-guerra, desenhando para os Estados Unidos a política de contenção do avanço soviético na Europa; inspirando a contribuição norte-americana para a Carta das Nações Unidas e estimulando a reformulação da doutrina nuclear, que passou da noção de “retaliação massiva” à de “resposta flexível”.”
A História tem uma faceta muito útil para o aprimoramento da ação humana: a característica de advertência permanente contra a repetição das desgraças que têm trazido, ao longo do tempo, miséria e morte para nações inteiras. A grande aliada dos agentes desses infortúnios é a ignorância. A falta de escolaridade começa por privar o cidadão do conhecimento quanto a direitos e obrigações de todas as pessoas, bem como dos países.
Em consequência, grupos de aristocratas poderosos se assenhoram do poder e das riquezas nacionais, em prejuízo dos que lhes ficam abaixo, especialmente os não escolarizados, condenados à massa dos excluídos.
E a gravidade dessa usurpação de bens e poder é tanto maior quanto mais enfraquecidos estiverem os povos, pelo desconhecimento das verdadeiras causas das suas desgraças.
Podem até ocorrer casos de multidões serem apascentadas para marchar pelas ruas por “Deus, pátria, família e liberdade”, quando o motivo real seria a tomada do poder por setores, interessados apenas em defender privilégios próprios e de grupos alienígenas a eles associados.
Atente-se para dois aspectos da “influência” exercida pelas elites orgânicas sobre o poder, mundo a fora. Em países desenvolvidos, como os EUA por exemplo, a ação se exerce também sobre o poder do Estado; mas as conseqüências mais danosas da atuação de entidades como o CFR e o CED, quem sofre são os países para os quais estas dirigiram o foco da sua ingerência. Já nos países-sede de tais instituições, a sua interferência no governo é contrabalançada pelos imensos recursos que lhes são carreados dos países periféricos, espoliados pelos conglomerados multinacionais e pelos grupos locais a estes associados.
Causa estranheza, portanto, que - quando um governo tenta quebrar os grilhões que prendem o País à categoria dos subdesenvolvidos - uma parcela expressiva da classe média lhe vire as costas, e tente fazer voltar ao poder a corrente política que infelicitou a Nação mediante “entrega” de quinhão considerável do patrimônio nacional.
(Enviado por um Amigo)
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