quinta-feira, 17 de março de 2011

Constatação manifesta


O sentimento da população portuguesa para com a política e os políticos é de profunda indignação e revolta. Infelizmente, os desmandos são de tal ordem e número que, além deste sentimento de frustração, as pessoas parecem estar anestesiadas.

Em vista disto, elaboro o presente, que penso deve ser amplamente divulgado por todas as formas e meios possíveis, tendo por objectivo despertar o país da letargia e reverter o quadro lamentável que se espalha entre os portugueses.

Ainda que os índices económicos possam aparentar uma certa tranquilidade, apenas ilusória, na medida em que padrões éticos estão a ser vilipendiados dia-a-dia nos mais variados níveis da Administração Pública. São tanto mais graves quanto mais próximos dos dois partidos da “alternância” dita democrática.

Escândalos de toda a ordem, desde a malversação do erário público, favorecimentos pessoais espúrios, espírito corporativista intoleravelmente reprovável, aumento absurdo do número de casos e atitudes anti-éticas deixaram de ser excepção para se tornarem regra. Ainda um escândalo não está bem divulgado, outro lhe toma o lugar, gerando na população, por esta sequência regular e continuada, aquele sentimento de impotência e letargia antes referido. Parecemos todos zombis estáticos, observando os factos sem reagir, descrentes das mudanças políticas.

Não se trata de reivindicar um simples e utópico processo de distribuição de rendimentos, de criticar irresponsavelmente a livre iniciativa ou de, levianamente, encontrar um modelo mais comedido, em que o cidadão trabalhador não fique estarrecido ao verificar que o que recebe de salário em toda uma vida, é pago a alguns em poucos anos, quando não alguns meses, sob as mais variadas denominações!

Ainda que fosse apenas pelo facto de não carregarmos na consciência a censura dos nossos filhos e netos pela nossa omissão e pelo nosso silêncio, e não pelo patriotismo em si, hoje tão pouco em voga, sinto ter chegado o momento de levantar a voz, pacífica mas energicamente. Estas palavras não pretendem ser um brado irresponsável, uma palavra de ordem ou um grito oportunista, que são os adjectivos tantas vezes usados pelos poderosos para abafar os protestos dos insatisfeitos.

Pretende ser um alerta, uma chamada a despertar, um incentivo à formação de cidadãos que, além de emprego e trabalho, sintam orgulho nos que os governam, através do seu voto, dos mais altos aos mais baixos, delegando-lhes poderes para fazer honestamente o melhor pelo país, pela sociedade, pela comunidade.

Sinto-me preocupado com a violência já não restrita aos grandes centros e que avança dia-a-dia, alcançando índices alarmantes. Estou preocupado com a educação na qual, sob um distorcido conceito de liberdade, os alunos agridem os professores, as drogas são consumidas pela nossa juventude à luz do dia na frente da polícia, trazendo no seu rasto a criminalidade crescente; só para citar alguns exemplos.

Os parlamentares legislam cada vez menos, porque preocupados em acusar os adversários ou em defender-se de acusações e lutar por cargos e benefícios, virando as costas àqueles que juraram defender. Reclamam do governo quando ele governa com medidas provisórias, mas não têm coragem de simplesmente as respeitar, temerosos de que com isso os seus apadrinhados sejam prejudicados nas inúmeras nomeações que irão favorecer este ou aquele partido, de entre aqueles dois, e assim perpetuar as benesses que aparentemente passaram a ser o objectivo principal e imediato dos seus actos.

Não menos preocupante é o quadro do poder executivo nos seus níveis, já que se vale exactamente desse poder de nomeações e da famigerada “caneta na mão” para fazer o que entende, enquanto os parlamentares desses dois partidos se assemelham a sócios em luta por objectivos comuns, embora condenáveis e distantes das necessidades da população.

Triste é também a situação do poder judicial que, embora dispondo hoje de toda a tecnologia da informática, acumula nos gabinetes os processos cujas decisões o cidadão, ansioso, espera anos, por vezes décadas.

Se a democracia está sustentada nestes três poderes e estes estão tão comprometidos na sua acção efectiva e no seu comportamento ético, fácil é concluir que quando o fundamento é frágil, a estrutura que sustenta também se fragiliza e ameaça ruir. Não foi para isso que a democracia foi defendida a alto custo num passado recente; simplesmente, tratar desiguais com igualdade não é democracia: é anarquia!

A classe dirigente não pode ser apenas uma elite intelectual. Isso é pouco!

Tem que ser, antes disso e mais que isso, uma elite moral. Um bom serviço eventualmente prestado no passado por algum político, não autoriza nem pode servir de atenuante para que cometa deslizes no presente. Já dizia Napoleão: “Toda a indulgência para com os culpados revela conivência.”

Assim como não se pode exigir que um filho imaturo seja exemplo para seus pais, mas sim o contrário, da mesma forma não se pode atirar para as costas da sociedade a responsabilidade pelo pouco interesse que os seus dirigentes têm para a coisa pública, impingindo-se a ela, sociedade, a culpa por suposta falta de critério na escolha dos candidatos eleitos. Esta é uma forma ardilosa, perversa e demagógica de pulverizar a responsabilidade por má conduta, tirando-a dos ombros dos dirigentes para a espalhar, comodamente sobre os ombros dos dirigidos.

A Constituição «cidadã» conseguiu, efectivamente, promover a verdadeira e autêntica cidadania? Manteve o equilíbrio entre direitos e deveres?

Recomecemos todos nós, portugueses de bem, a construir um país melhor, mais humano e social, íntegro e civilizado, dirigido por pessoas das quais possamos orgulhar-nos e não sentirmo-nos porfundamente envergonhados, como hoje acontece.

Que nos sirva de inspiração e incentivo a seguinte frase do escritor e analista e económico e político sul-africano, Leon Louw: «Se conseguirmos fazer avançar a multidão na direcção certa, esses políticos não terão outra alternativa senão ir na sua frente!»

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