Há-de tomar o pregador uma só matéria, há-de defini-la
para que se conheça, há-de dividi-la para que se distinga, há-de prová-la com a
Escritura, há-de declará-la com a razão, há-de confirmá-la com o exemplo, há-de
amplificá-la com as coisas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as
conveniências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar:
há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer as dificuldades, há-de impugnar e
refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários, e depois disto
há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar.
Isto é sermão, isto é pregar, e o que não é isto, é falar
de mais alto.
Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter
variedade de discursos, mas esses hão-de nascer todos da mesma matéria e
continuar e acabar nela.
Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede: uma árvore
tem raízes, tem tronco, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem
frutos.
Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e
sólidas, porque há-de ser fundado no Evangelho; há-de ter um tronco, porque
há-de ter um s+o assunto e tratar de uma só matéria. Deste tronco hão-de nascer
diversos ramos, que são diversos discursos, mas nascidos d mesma matéria e
continuados nela; estes ramos não hão-de ser secos, senão cobertos de folhas,
porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras.
Há-de ter esta árvore varas, que são a repressão dos
vícios; há-de ter flores, que são as sentenças; e por remate de tudo isto,
há-de ter frutos, que é o fruto e o fim a que se há-de ordenar o sermão.
De maneira que há-de haver frutos, há-de haver flores, há-de haver varas, há-de haver folhas, há-de haver ramos, mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma matéria.
Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são
ramos, não é sermão, são maravalhas. Se tudo são folhas, não é sermão, são
verças.
Se tudo são varas, não é sermão, é feixe. Se tudo são
flores, não é sermão, é ramalhete.
Serem tudo frutos, não pode ser; porque não há frutos sem
árvore.
Assim que esta árvore, a quem podemos chamar árvore da
vida, há-de haver o proveitoso do fruto,
o formoso das flores, o rigoroso das varas, o vestido das folhas, o estendido
dos ramos, mas tudo isto nascido e formado de um só tronco, e esse não
levantado no ar, senão fundado nas raízes do Evangelho:
«Semear o trigo». Eis aqui como hão-de ser os sermões,
eis aqui como não são. E assim não é muito que se não faça frutos com eles.

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