Estudo
publicado na Lancet dá pistas para novos tratamentos dos
sintomas da anorexia através da colocação de eléctrodos no cérebro.
Imagem de uma campanha de 2007 contra a
anorexia com a modelo Isabelle Caro que acabou por morrer em 2010
A solução para os casos mais
graves de anorexia pode passar pela estimulação de áreas específicas do cérebro
com a ajuda de eléctrodos, indica uma investigação de cientistas
norte-americanos e canadianos com “resultados promissores” e que acaba de ser
publicada na revista científica Lancet.
O grupo de investigadores do
Krembil Neuroscience Centre da University Health Network, em Toronto, conseguiu
demonstrar que a técnica de estimulação cerebral profunda pode ser uma solução
para o tratamento de doentes com anorexia nervosa que têm resistido a outros
tratamentos. O ensaio piloto para este distúrbio alimentar, que se traduz numa
redução limite da quantidade de alimentos ingeridos, ainda está na fase 1, mas
os cientistas estão entusiasmados com os resultados.
A técnica está em fase
experimental e só algumas das doentes mostraram melhorias. Depois de nove meses
de tratamento, três das seis mulheres que estão no ensaio tinham engordado e
mostravam estar psicologicamente melhor. Duas delas conseguiram mesmo integrar
um programa específico para pessoas com distúrbios alimentares.
Para estas três doentes, “este
foi o período mais longo de aumento sustentado do Índice de Massa Corporal
(IMC)” – que avalia a relação entre peso e altura – desde o início da doença.
Uma das participantes tinha um IMC de 11, quando o normal para o seu caso era
entre 18,5 e 24,9, e conseguiu chegar aos 21.
A técnica, conhecida como
estimulação cerebral profunda, esteve associada a melhorias no humor, ansiedade
e depressão sendo que os investigadores perceberam que há diferenças
estruturais e funcionais no cérebro das pessoas com e sem anorexia, que
influenciam sintomas como a ansiedade ou a percepção do próprio corpo. Contudo,
três das seis mulheres não mostraram qualquer ganho de peso e os cientistas
justificam este facto com “vários eventos adversos associados”, incluindo o
caso de uma doente que sofreu uma convulsão. Outros efeitos adversos incluem
dor, náuseas ou ataques de pânico.
Mais de 50 hospitalizações
A idade média das participantes no estudo é de 38 anos e têm a doença há cerca de 18 anos, também em média. Cinco das seis participantes, além da anorexia, têm outras patologias psiquiátricas diagnosticadas, como depressão e transtorno obsessivo-cumpulsivo. Ao todo, desde que lhes foi diagnosticada a doença, foram hospitalizadas mais de 50 vezes, sendo que cinco delas tinham estado em unidades de cuidados intensivos e quatro chegaram a ser alimentadas com a ajuda de uma sonda.
Quanto ao procedimento, os
investigadores adiantaram que as mulheres estavam acordadas durante a
estimulação para perceber, em tempo real, os efeitos que cada eléctrodo tinha.
Quando foram encontrados os níveis ideais, os eléctrodos foram ligados a um
aparelho que emite impulsos eléctricos colocado debaixo da clavícula direita de
cada participante e que é semelhante a um pacemaker cardíaco e que permitirá manter
os estímulos definidos. Este é aliás um método muito semelhante a uma cirurgia
utilizada para controlar os tremores associados à doença de Parkinson.
“Estamos realmente a alcançar uma
nova era na compreensão do cérebro e do papel que pode desempenhar em certos
distúrbios neurológicos”, resumiu Andres Lozado, um dos investigadores do
estudo e neurocirurgião no Krembil Neuroscience Centre of Toronto Western Hospital,
onde foram realizadas as intervenções cirúrgicas de estimulação cerebral
profunda. “Identificando e corrigindo alguns circuitos cerebrais associados aos
sintomas de algumas destas patologias, encontramos opções adicionais para
tratar esta doença”, acrescentou, explicando que a estimulação permite tratar
não directamente a anorexia mas sim sintomas como depressão, ansiedade e imagem
corporal – que costumam dificultar e influenciar muito a recuperação.
“Existe uma necessidade urgente
de terapias adicionais que ajudem quem sofre de anorexia severa. Os distúrbios
alimentares têm das taxas de mortalidade mais elevadas entre as doenças mentais
e cada vez mais e mais mulheres morrem de anorexia. Qualquer tratamento que
potencialmente mude a história natural da doença não está só a oferecer
esperança mas a salvar vidas”, insistiu Blake Woodside, outro dos
investigadores e director de um dos maiores programas sobre distúrbios
alimentares do Canadá.
Os investigadores esperam que o
seu trabalho contribua para o aparecimento de novos tratamentos para a anorexia
nervosa, mas também para a compreensão dos vários factores que estão envolvidos
nesta doença crónica que afecta cerca de 1% das pessoas em todo o mundo e que
geralmente é diagnosticada em mulheres jovens, com idades entre os 15 e os 19
anos.
=Público=

Sem comentários:
Enviar um comentário