Agito-me e,
portanto, emito um mundo tão suspeito como a minha especulação, que o
justifica, adopto o movimento que me transforma em gerador de ser, em artesão
de ficções, ao mesmo tempo que a minha veia cosmogónica me faz esquecer que,
arrastado pelo turbilhão dos actos, não passo de um acólito do tempo, de um
agente de universos caducos.
Empanturrados
de sensações e do seu corolário, o devir, somos seres não libertos, por
inclinação e por princípio, condenados de eleição, presas de febre do visível,
pesquisadores desses enigmas de superfície que estão à altura do nosso desânimo
e da nossa trepidação.
Se queremos
recuperar a nossa liberdade, devemos pousar o fardo da sensação, deixar de
reagir ao mundo através dos sentidos, romper os nossos laços. Ora, toda a
sensação é um laço, tanto o prazer como
a dor, tanto a alegria como a tristeza.
Só se
liberta o espírito que, puro de toda a convivência com seres ou com objectos,
se aplica à sua vacuidade.
Resistir à
sua felicidade é coisa que a maioria consegue; a infelicidade, no entanto, é
muito mais insidiosa. Já a provaram?
Jamais se
sentirão saciados, procurala-ão comm avidez e de preferência nos lugares onde
ela não se encontra, mas projectá-la-ão neles, porque, sem ela, tudo pareceria
inútil e baço.
Onde quer
que a infelicidade se encontre, expulsa o mistério ou torna-o luminoso. Sabor e
chave das coisas, acidente e obsessão, capricho e necessidade, fará amar a
aparência no que ela tem de mais poderoso, de mais duradouro e de mais
verdadeiro, amarrando para sempre porque, intensa por natureza, é, como toda a “intensidade”,
servidão, sujeição.
A alma
indiferente e nula, a alma desentravada – como chegar a ela? E com9o conquistar
a ausência, a liberdade da ausência? Tal
liberdade jamais figurará entre os nossos costumes, tal como neles não
figurará o sonho do espírito infinito.
Para nos
identificarmos com uma doutrina vinda de longe, seria necessário que a desposássemos
sem restrições: de que serve aceitar certas verdades se rejeitamos a
transmigração, base da ideia de renúncia?
Para quê
subscrever o Vedanta, aceitar a concepção da irrealidade das coisas, se nos
comportamos como se elas existissem? Inconsequência inevitável para todo o espírito educado no culto dos fenómenos, mas
também no culto de políticos que nada
valem e que tudo fazem para dar cabo da vida a
uma cidadania mártir e martirizada desde há muitos anos.
S. C.

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