quinta-feira, 28 de março de 2013

«O VAZIO ACTUAL»


Agito-me e, portanto, emito um mundo tão suspeito como a minha especulação, que o justifica, adopto o movimento que me transforma em gerador de ser, em artesão de ficções, ao mesmo tempo que a minha veia cosmogónica me faz esquecer que, arrastado pelo turbilhão dos actos, não passo de um acólito do tempo, de um agente de universos caducos.

Empanturrados de sensações e do seu corolário, o devir, somos seres não libertos, por inclinação e por princípio, condenados de eleição, presas de febre do visível, pesquisadores desses enigmas de superfície que estão à altura do nosso desânimo e da nossa trepidação.

Se queremos recuperar a nossa liberdade, devemos pousar o fardo da sensação, deixar de reagir ao mundo através dos sentidos, romper os nossos laços. Ora, toda a sensação é um laço,  tanto o prazer como a dor, tanto a alegria como a tristeza.

Só se liberta o espírito que, puro de toda a convivência com seres ou com objectos, se aplica à sua vacuidade.

Resistir à sua felicidade é coisa que a maioria consegue; a infelicidade, no entanto, é muito mais insidiosa. Já a provaram?

Jamais se sentirão saciados, procurala-ão comm avidez e de preferência nos lugares onde ela não se encontra, mas projectá-la-ão neles, porque, sem ela, tudo pareceria inútil e baço.

Onde quer que a infelicidade se encontre, expulsa o mistério ou torna-o luminoso. Sabor e chave das coisas, acidente e obsessão, capricho e necessidade, fará amar a aparência no que ela tem de mais poderoso, de mais duradouro e de mais verdadeiro, amarrando para sempre porque, intensa por natureza, é, como toda a “intensidade”, servidão, sujeição.

A alma indiferente e nula, a alma desentravada – como chegar a ela? E com9o conquistar a ausência, a liberdade da ausência? Tal  liberdade jamais figurará entre os nossos costumes, tal como neles não figurará o sonho do espírito infinito.

Para nos identificarmos com uma doutrina vinda de longe, seria necessário que a desposássemos sem restrições: de que serve aceitar certas verdades se rejeitamos a transmigração, base da ideia de renúncia?

Para quê subscrever o Vedanta, aceitar a concepção da irrealidade das coisas, se nos comportamos como se elas existissem? Inconsequência inevitável para todo o  espírito educado no culto dos fenómenos, mas também no culto de políticos que  nada valem e que tudo fazem para dar cabo da vida a  uma cidadania mártir e martirizada desde há muitos anos.

S. C.

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