Crulic,
O Caminho Para o Além, da realizadora romena Anca Damian, venceu o
Grande Prémio da 12ª edição da Monstra - Festival de Cinema de Animação de
Lisboa.
Havia numa prisão polaca um homem
que queria ser ouvido, e que tinha como única arma o seu corpo. Deixou de
comer, e foi morrendo, a pouco e pouco, silenciosamente, ignorado por todos. Só
meses depois da sua morte é que o mundo ouviu a história de Claudiu Crulic.
Em Crulic, o Caminho
Para o Além – que venceu o
Grande Prémio do Festival Monstra – Festival de Cinema de Animação de Lisboa
2013, anunciado no sábado à noite – a realizadora romena Anca Damian dá
finalmente a este romeno preso por roubo na Polónia a voz que ele não conseguiu
ter.
“Ouvi falar deste caso na
imprensa”, conta Anca Damian ao PÚBLICO, numa entrevista por email. “A história tornou-se conhecida
três meses depois de Claudiu Crulic morrer, e foi uma história que sempre me
fascinou, sobretudo a morte dele: ele conseguia ver o corpo a deixar este mundo
a cada dia que passava, enquanto a sua alma continuava ali”.
A história era tão triste que era uma enorme peso para
mim
Anca Damian, realizadora
Crulic foi preso em 2007 e acusado
de roubo, mas afirmou sempre que na altura do crime estava em Itália. Os seus
protestos foram ignorados tanto pelas autoridades polacas como pelo consulado
romeno na Polónia. Iniciou uma greve de fome, mas os médicos da prisão não
deram importância aos sinais de degradação da saúde, e Crulic acabou por morrer,
sem que as autoridades ou os médicos reconhecessem qualquer responsabilidade.
Damian sentia que esta história era
“uma boa desculpa para analisar os desvios na nossa chamada ‘civilização’ do
século XXI, quando as pessoas assistem passivamente à morte lenta de outra
pessoa e não fazem nada para a evitar”. Mas não foi fácil contá-la. Em primeiro
lugar, teve que enfrentar a “hostilidade” tanto do lado romeno como do lado
polaco, ao mesmo tempo que procurava informação sobre o que tinha acontecido a
Crulic na Polónia, um país cuja língua não dominava.
Por outro lado, explica, “a
história era tão triste que era uma enorme peso para mim”. Mas acreditou que
tinha a obrigação de a contar. “Ter-me-ia sentido culpada (não sei exactamente
porquê) se abandonasse o projecto apenas porque queria tornar a minha vida mais
fácil”.
O filme é feito com uma mistura de
técnicas de animação, do stopmotion à colagem, passando por recortes e
utilização de imagens reais. “Desde o momento que decidi contar a história a
partir do ponto de vista de Crulic que queria fazer um filme de animação. Na
verdade foi uma opção que se justificava a ela mesma: de que outra forma se
consegue pôr um morto a contar a sua própria história?”
Anca começou a trabalhar como
directora de fotografia antes de se lançar como realizadora (trabalho que
acumula geralmente com o de argumentista e produtora). É autora de várias
curtas-metragens e documentários. Em 2008 fez a sua primeira longa de ficção.
Com Crulic, o Caminho Para o Além (2011) ganhou já vários prémios,
aos quais se soma agora o Grande Prémio da 12ª edição da Monstra – Festival de Cinema de Animação de Lisboa.

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