É
o maior radiotelescópio do planeta. É inaugurado nesta quarta-feira, no deserto
de Atacama, no Chile, e vai permitir observações inéditas de galáxias,
estrelas, poeira e da origem da vida. Vem aí uma revolução.
O céu do
Sul rodopia sobre as antenas do radiotelescópio ALMA, no planalto de
Chajnantor, a 5000 metros de altitude, no Chile.
É um supertelescópio, na verdade são 66 telescópios (antenas) a
funcionar em conjunto e apontados para o céu, num deserto do Chile. O Atacama
Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) é literalmente uma infra-estrutura
astronómica internacional que resulta de uma parceria entre a Europa, através
do Observatório Europeu do SUL (ESO), a América do Norte e o Leste Asiático, em
cooperação com a República do Chile, e que envolve um investimento de mil
milhões de euros. Muito dinheiro para ver melhor e mais longe o nosso Universo.
Como nunca se viu antes.
“É o telescópio das origens”, resume José Afonso, director do
Centro de Astronomia e Astrofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de
Lisboa (CAAUL) e que acompanhou o processo de crescimento do ALMA como membro
do Comité Europeu de Aconselhamento Científico.
No
vídeo divulgado no site do CAAUL, o investigador explica por que estamos
perante o instrumento que nos dará respostas sobre as origens: “Vai permitir
observar em detalhe a origem das galáxias, das estrelas e a origem da própria
vida.” Entre outras proezas que se adivinham, o ALMA promete, pela primeira
vez, um conhecimento pormenorizado da química das nuvens interestelares, onde
se acredita que se formem muitos dos compostos essenciais à vida.
O
instrumento é especial porque possibilita observações que nunca foi possível
fazer até agora em comprimento de onda do chamado milímetro e submilímetro.
Nesta quarta-feira, data da inauguração oficial, estarão a funcionar 57 do
total das 66 antenas que estão previstas (e que serão instaladas até ao final
deste ano).
A
localização do ALMA também é especial. Esta estranha e astronómica plantação de
gigantescas antenas está idealmente situada a cinco mil metros de altitude no
deserto de Atacama, no Chile, uma das regiões mais secas do planeta. Mas mais
do que existe hoje é o que está para vir. “Espera-se que o ALMA revolucione o
conhecimento da astronomia. Para muitas da perguntas que existem hoje, o ALMA
será o primeiro a dar respostas”, defende José Afonso, que arrisca afirmar que
estamos prestes a entrar numa nova era “pós-ALMA” marcada por um conhecimento
mais aprofundado e completo do Universo.
“É
um projecto de observação astronómica sem par até agora”, anuncia João
Fernandes, astrónomo na Universidade de Coimbra, lançando as expectativas:
“Espera-se com este sistema de radiotelescópios ficar a conhecer muito mais;
por exemplo, como se formam as estrelas e os sistemas planetários. E, quem
sabe, por comparação conhecer melhor como se formou o nosso Sistema Solar.”
“O
ALMA é um projecto de 66 radiotelescópios que, como a palavra diz, faz
observações da radiação entre o infravermelho e as ondas de rádio. É destinado
por isso à observação de objectos frios no Universo. Os objectos que podem ser
estudados com o ALMA são variados, tal como estrelas, sistemas planetários, galáxias
e a até a radiação cósmica de fundo; ou seja, o eco do Big-Bang. Como termo de
comparação, posso adiantar que a sensibilidade das observações do ALMA é várias
vezes superior à do telescópio espacial Hubble”, explica João Fernandes ao
PÚBLICO.
Mercedes
Filho, investigadora do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, lembra
ainda que “a motivação para a construção do telescópio ALMA foi estudar alguns
fenómenos astronómicos que até então tinham sido pouco estudados devido à
limitação da instrumentação”. A partir de agora, “o ALMA vai permitir estudar
os chamados fenómenos frios ou menos energéticos do Universo, com um detalhe
sem precedentes”, avisa.
A
inauguração do maior radiotelescópio do mundo - em que estará presente o
ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato - pode ser seguida no sitehttp://www.almaobservatory.org/ em directo, a partir das instalações
do Centro de Apoio às Operações do observatório, situado a uma altitude de 2900
metros nos Andes chilenos. A transmissão acontece entre as 14h30 e as 16h (hora
de Portugal continental).
=Público/Ciência=

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