
Quando rebentou a crise económica, descaradamente o fez, com a falência do Lehman Brothers a 15 de Setembro 2008 e se transmitiu, como um rastilho de pólvora pelo sistema financeiro internacional, John Maynard Keynes removeu-se natumba e todas as economias ocidentais, além de sairem em socorro das suas instituições bancárias, para evitar o afundamento do sistema, apressaram-se a aplicar políticas expansivas que detiveram a queda da actividade e travaram o caminho rumo ao abismo.
Aquela emoção e a súbita intervenção do crédito, povocaram o rebentamento da bolha imobiliária em diversos países ocidentais e, nos casos mais dramáticos, como o português, a recessão provocou uma subida súbita e brutal do desemprego. Os estímulos fiscais permitiram, na maioria dos casos, conter relativamente a hemorragia, á medida que se acorria em auxílio do sistema financeiro, mas, como é natural, o salvamento provocou défices que incrementaram a dívida pública.
Uma vez chegados ao fundo, as economias afectadas pela crise, também a nossa que já dela saiu, tendo que modular a política económica para travar o défice sem comprometer o crescimento.
Tarefa nada fácil, porque a operação encerra uma evidente contradição: as medidas de austeridade são incompatíveis com os estímulos fiscais necessários, não só para relançar a actividade, mas também, no caso português, para mudar o padrão de crescimento, impulsionando actividades de maior valor acrescido e compreendendo uma tenaz conquista de mais produtividade.
Mas quando todos os países da União Europeia, salvo a Grécia muito deteriorada, que requereu salvamento singular, tinham traçado uma rota para conduzir os seus défices para os 3% em 2013, o directório europeu, o muito mal visto eixo franco-alemão, manifestamente conservador, impôs condições mais rígidas e uma convergência mais urgente, o que obrigou a novos e mais duros ajustes em todos os países que começaram a destruir alguns dos flancos mais sensíveis dos estados de bem-estar.
Portugal, por seu lado, viu-se “forçado” a um novo ajuste.
Por analogia, a Alemanha, com sua economia forte, decidiu também proceder a um ajuste, que comprometerá o novo arranque da Europa.
A economia marca, enfim, uma vez mais, a pauta á política. O silêncio socialista é quase absoluto no meio da algazarra ultraliberal. A única voz potente é norte-americana, do Nobel de Economia, Paul Krugman que, num memorável artigo, contradisse esse irracional pensamento único que nos invade.
«Tanto a economia teórica como a experiência nos dizem que reduzir drasticamente á despesa, quando padecemos dum desemprego elevado, é muito má ideia; não só agrava a recessão, como serve de pouco para melhorar as perspectivas, porque grande parte do que o governo poupa ao reduzir a despesa, perde-o, já que o encaixe fiscal diminui numa economia mais débil».
É dramático constatar que, apesar da clareza e contundência desta objecção, não se tenha produzido praticamente debate algum sobre a grave questão do ritmo do ajuste, do qual depende o preço social que se paga por ele, e se vá buscar dinheiro em mais impostos e portagens, onde não deveria.
(Enviado por um Amigo)
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