
o porquê
no início dos anos oitenta, acompanhei os meus Pais na mudança de residência da foz para as antas. assim, ressenti um pouco, muito, a falta do Mar, o meu bom amigo de infância, confidente e... porque não, “o meu Deus próprio” !
sempre que posso, hoje e sempre, faço tudo para o ir ver !
o Ercílio, que faleceu já em dois mil e um, como Pai observador deste nosso mimo de rapaz, encorajava-me e incentivava-me insistindo na proximidade do estádio das antas e do fcp, com a actividade e o movimento da maior centralidade, a acessibilidade fácil à baixa, por devota afeição, com muitos e diversos adjectivos me induzia a atenuar a contrariedade. por um bom par de vezes, quando passávamos a pé pela rua da alegria, referiu-me com orgulho e sorrisos a antiga casa de Guilhermina Suggia, “a maior…” em vez de a melhor, “…música portuguesa de todos os tempos era daqui, viveu aqui, era do Porto !” exclamou, lembro-me, com genuína emoção !
em meados de dois mil e oito, valendo-me do dito pelo meu inestimável Pai, já a casa de G. Suggia exibia a placa de bronze da escultora Irene Vilar, ao conversar num cafezito da rua da alegria com alguns dos alunos da escola de música recém vizinha, pude aferir surpreso o alheamento e até o total desconhecimento da existência da diva da música portuguesa por parte de estudantes da mesma arte ! ainda por cima, estando a casa de Suggia situada a umas escassas dezenas de metros da referida escola ! pela ocasião, e nesse livre contexto académico, troquei também impressões em inglês com um professor de história da música da mesma instituição de ensino superior. tal senhor, de origem holandesa, déspota da sua complexada superioridade nórdica, retorquiu-me sem hesitação, “that’s not important !”
“como ?!” exclamei revoltado omitindo a retroversão, e virei-lhe as costas rápido de zangado, tanto que me prenunciei e aos demais, fazer tudo ao meu alcance para mudar esta triste e por demais estulta situação ! a começar pela pouco esclarecida mas responsabilizável Escola de Música e das Artes do Espectáculo e pelos seus alunos, a quem prometi dedicar o trabalho que encetei de imediato!
a História (fenómeno exclusivamente humano) é o testemunho (hereditário e físico) linguístico (a língua é a expressão máxima de uma cultura) da experiência vivencial dos nossos antecedentes. mais do que uma utilidade e uma responsabilidade, é uma clara devoção. é uma obrigação. a cultura é uma sua consequência.
subestimei no entanto o processo de abordagem e de desenvolvimento a que me devotei. como esta não é a minha profissão e tenho outros afazeres, a conclusão da missão tardou e prolongou-se anos no tempo.
o método peculiar escolhido necessitou de muitas fotografias do exterior da rua e da casa de G. Suggia obtidas dos mais diversos locais e perspectivas. com a intenção de fotografar também o interior da sua habitação, onde hoje se encontra instalada a sucursal de uma instituição sedeada em Lisboa, cuja denominação não refiro por mero pejo, fui gentilmente recebido no íntimo do edifício mas… não o fotografei nem o visitei, mal agradecido saí por onde entrei imbuído de um incómodo sentimento de usurpação, uma total ausência de legitimidade em pisar aquele nobre soalho para o qual nunca fui pela Senhora convidado.
…qual vil intruso ferido pelos vidros da janela que mal tratara ! nem eu nem ninguém !
não me resta a mais pequena dúvida na certeza da justeza de que neste imóvel, vazio de vida mas assombrado pelas mais ricas recordações, mais tarde ou mais cedo, vingará a “Casa Museu Guilhermina Suggia”.
o trabalho recorreu-se igualmente de um vasto levantamento histórico fotográfico, dada a riqueza da recolha, aqui optei também por uma contida evolução cronológica e só da própria bonita figura de G. Suggia. a sua família, os muitos amigos e os conhecidos, são só do seu coração.
a pesquisa biográfica provou-se agradavelmente profícua, de muitas autorias e de várias épocas, em alguns casos, constatei agradado, é tal a eloquência e o realismo, que mais não fiz do que repeti-las.
com alguma dificuldade consegui também adquirir o único cd da violoncelista editado.
o meu único intuito é o de contribuir com este préstimo e com esta deferência para o digno reconhecimento da vida abnegada e do caminho artístico de uma figura inteira e meritória de estatura incontornável da Música, da Arte e da Cultura Portuguesas.
como fiei, dedico este trabalho aos alunos(as) da Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo, também eles orgulhosos por esta sua virtuosa e mui digna conterrânea.
o ficheiro do programa power point que suporta este trabalho, preferido por comum a todos os destinatários receptores, vai ser enviado por email corrente e, dados os ditos 13,2 mgbs, também via yousendit gratuito para todos os que o necessitarem. casos há, como aos pobres funcionários públicos da cmp, sem as muitas mordomias que tão falsamente se lhes alvitra, pois nem a um link têm autorização de acesso, a quem sugiro o encaminhar de todo o email que chegar via yousendit, para outro endereço pessoal.
lélio magalhães pinto de oliveira sete de abril de dois mil e onze
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