Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores?
Usa-se hoje o modo que chama de apostilar o Evangelho, em
que tomam muitas matérias, levantam muitos assuntos, e quem levanta muita caça
e não segue nenhuma, não é muito que se recolha com as mãos vazias. Boa razão é
também esta.
O sermão há-de ter um só assunto e uma só matéria. Por
isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos géneros de
sementes, senão uma só: «Saiu o que semeia a semear.» Semeou uma semente só, e
não muitas matérias. Se o lavrador semara primeiro trigo, e sobre trigo semeara
centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara
cevada, que havia de nascer? – Uma mata brava, uma confusão verde.
Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como
semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa.
Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau
fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para
oeste, como poderia fazer viagem?
Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão
pouco. Um assunto vai para um vento, outro vai para outro vento; que se há-de
colher senão vento?
O Baptista convertia muitos em Judeia; mas quantas
matérias tomava? – Uma só matéria: «Aparelhai o caminho do Senhor!?; a
preparação para o Reino de Cristo.
Jonas converteu os Ninivitas; mas quantos assuntos tomou?
– Um só assunto: «Daqui a quarenta dias será Ninive subvertida»; a subversão da
cidade.
De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só
assunto, e nós queremos pregar quarenta assuntos numa hora! Por isso não
pregamos nenhum. O sermão há-de ser de uma só cor, há-de ter um só objecto, um só assunto, uma só matéria.
(…)

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