domingo, 3 de fevereiro de 2013

«OS CONVULSIONÁRIOS…»























Os convulsionários, no centro de uma farsa de proporções cósmicas, imprimem ao universo lusitano, os estigmas da nossa história, e para sempre seremos incapazes dessa iluminação que convida a perecer tranquilamente.

Foi pelas nossas obras, e não pelos nossos silêncios, que escolhemos desaparecer: o nosso futuro lê-se no riso grosseiro de certos rostos, mas também das nossas fisionomias de profetas acabrunhados e activos.

O sorriso de Buda, esse sorriso que paira sobre o mundo hipócrita da política, não ilumina as nossas faces. Quando muito, concebemos aquilo a que chamamos, erradamente, de felicidade; nunca a bem-aventurança, apanágio de civilizações assentes na ideia de salvação, na recusa de saborear os seus males, de neles se comprazer; mas, sibaritas da dor, rebentos de uma tradição masoquista, qual de nós hesitaria entre o sermão de Benares e o Heautontimorúmero? «Sou a ferida e o punhal», eis o nosso absoluto, a nossa eternidade.

Quanto aos nossos redentores, vindos até nós para nosso maior dano, amamos a nocividade das suas esperanças e dos seus remédios, a precipitação com que favorecem e exaltam os nossos males, o veneno que em nós infundem as suas palavras de vida.

Devemos-lhes o facto de sermos mestres no sofrimento sem saída!

A que tentações, a que extremos nos conduz a lucidez! Abandoná-la-emos para nos refugiarmos na inconsciência?

Qualquer pessoa pode salvar-se por meio do sono, qualquer pessoa tem génio quando dorme: não há a menor diferença entre os sonhos de um carniceiro e os sonhos de um poeta.

Mas a nossa clarividência não pode tolerar que semelhante maravilha seja duradoura, nem que a inspiração fique assim ao alcance de todos: o dia arrebata-nos os dons que a noite nos concede.

Só o louco possui o privilégio de passar sem barreiras da exist~encia nocturna para a existência diurna: não há qualquer distinção entre os seus sonhos e a sua vigília. Renunciou à nossa razão como o mendigo aos nossos bens.

Um e outro descobriram o caminho que leva para lá do sofrimento, um e outro resolveram todos os nossos problemas; por isso permanecem como modelos que não podemos seguir, salvadores sem adeptos.

Ao mesmo tempo que remexemos nos nossos males, os dos outros não deixam de nos interpelar.

E mesmo aquele que acabou na Cruz não é, de maneira alguma, por ter sofrido por nós que ainda conta aos nossos olhos, mas simplesmente por ter sofrido e soltado alguns gritos tão profundos quanto gratuitos.

Porque aquilo que veneramos nos nossos deuses são as nossas derrotas embelezadas!


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