Os convulsionários, no centro de uma farsa de proporções
cósmicas, imprimem ao universo lusitano, os estigmas da nossa história, e para
sempre seremos incapazes dessa iluminação que convida a perecer tranquilamente.
Foi pelas nossas obras, e não pelos nossos silêncios, que
escolhemos desaparecer: o nosso futuro lê-se no riso grosseiro de certos
rostos, mas também das nossas fisionomias de profetas acabrunhados e activos.
O sorriso de Buda, esse sorriso que paira sobre o mundo
hipócrita da política, não ilumina as nossas faces. Quando muito, concebemos
aquilo a que chamamos, erradamente, de felicidade; nunca a bem-aventurança,
apanágio de civilizações assentes na ideia de salvação, na recusa de saborear
os seus males, de neles se comprazer; mas, sibaritas da dor, rebentos de uma
tradição masoquista, qual de nós hesitaria entre o sermão de Benares e o
Heautontimorúmero? «Sou a ferida e o punhal», eis o nosso absoluto, a nossa eternidade.
Quanto aos nossos redentores, vindos até nós para nosso
maior dano, amamos a nocividade das suas esperanças e dos seus remédios, a
precipitação com que favorecem e exaltam os nossos males, o veneno que em nós
infundem as suas palavras de vida.
Devemos-lhes o facto de sermos mestres no sofrimento sem
saída!
A que tentações, a que extremos nos conduz a lucidez!
Abandoná-la-emos para nos refugiarmos na inconsciência?
Qualquer pessoa pode salvar-se por meio do sono, qualquer
pessoa tem génio quando dorme: não há a menor diferença entre os sonhos de um
carniceiro e os sonhos de um poeta.
Mas a nossa clarividência não pode tolerar que semelhante
maravilha seja duradoura, nem que a inspiração fique assim ao alcance de todos:
o dia arrebata-nos os dons que a noite nos concede.
Só o louco possui o privilégio de passar sem barreiras da
exist~encia nocturna para a existência diurna: não há qualquer distinção entre
os seus sonhos e a sua vigília. Renunciou à nossa razão como o mendigo aos
nossos bens.
Um e outro descobriram o caminho que leva para lá do
sofrimento, um e outro resolveram todos os nossos problemas; por isso
permanecem como modelos que não podemos seguir, salvadores sem adeptos.
Ao mesmo tempo que remexemos nos nossos males, os dos
outros não deixam de nos interpelar.
E mesmo aquele que acabou na Cruz não é, de maneira
alguma, por ter sofrido por nós que ainda conta aos nossos olhos, mas
simplesmente por ter sofrido e soltado alguns gritos tão profundos quanto
gratuitos.
Porque aquilo que veneramos nos nossos deuses são as
nossas derrotas embelezadas!

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