sábado, 16 de fevereiro de 2013

«MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE»


“Paixão requer paixão; fervor extremo/Com extremo e fervor se recompensa.”

Estes versos do poeta sadino ilustram aquilo que foi a sua vida e a sua obra, aliás profundamente ligadas.

Filho de um advogado e de uma senhora de origem francesa, Bocage cresce num ambiente em que a poesia está presente, mormente através de uma sua tia-avó, Mariana du Bocage, poetisa que recebeu os favores da intelectualidade francesa, e inclusive de seu pai, que não desdenhava invocar as musas nas horas vagas.

Cedo o seu espírito irrequieto se faz sentir, levando-o a abandonar aos 14 anos a escola em busca de aventura,a listando-se no regimento de Infantaria 7. Vem depois para Lisboa, matriculando-se na Academia da Marinha e assentando praça como guarda-marinha. Paralelamente, a sua veia poética começa a garantir-lhe um enorme sucesso entre as tertúlias boémias que enxameiam os cafés da capital, tirando partido de extraordinários dotes de improvisação.

A sua linguagem enriquece-se de termos de calão, que não hesita em utilizar, emprestando à sua poesia um travo de veracidade popular que, aliado à ferocidade do seu espírito satírico, porventura terão levado Herculano a considerar que Bocage trouxera a poesia dos salões para a praça pública.

O individualismo do seu carácter malquista-o rapidamente com a Nova Arcádia, de que chegara a ser membro, criando-lhe inimizades que ele avoluma ridicularizando nos seus versos os adversários.

O temperamento de polemista é uma das facetas mais marcantes do jovem guarda-marinha, sempre pronto a empunhar a arma crítica jocosa para ferir os seus inimigos; porém, a certeza com que o faz não tem paralelo quando transporta para o seu íntimo, apesar das fanfarronices algo pedantes em que se envolve, e que mais não são do que tábuas de salvação a que a sua mente agitada e perpetuamente em busca de equilíbrio recorre.

Daí a inconstância, a insegurança, a volubilidade que se patenteiam na sua vida. Procurando imitar o seu modelo, Camões, parte para a Ásia, passando por Goa e Damão, primeiro, e depois por Macau e por Cantão.

Nos itinerários do vate d’Os Lusíadas não encontra a felicidade que a sua alma torturada persegue, pelo que regressa a Lisboa desencantado. Ali, deixa-se cativar pelas promessas do liberalismo jacobino, então em moda, apesar dos esbirros de Pina Manique, para o qual o seu amor à liberdade naturalmente o predispõe.

A teia do intendente da polícia acaba por o deter e conduzir á prisão.

Amigos influentes conseguem transformar o delito contra o Estado em erro religioso,  o que provoca a sua transferência para os cárceres da Inquisição, então bem distante, após o consulado pombalino, da violência repressiva de outras eras.

Posteriormente, transita para o Convento das Necessidades, ficando entregue á custódia da Congregação do Oratório. É um Bocage diferente que abandona os Néris, doente e mais conformado (conformista?), dedicando-se ao sustento de uma irmã através de traduções.

À cova o seu estro irá parar, minado por um aneurisma, aquele inimigo de hipócritas e frades, cuja vida foi uma constante confrontação entre conceitos tantas vezes opostos, entre contradições dilacerantes.

A tudo isto ultrapassou pelo génio, pela visão que não esquecia o erotismo, pela capacidade plástica de modelar a língua pátria, pela inventiva que, quando se apresentava a necessidade, se convertia em invectiva aguda, pela agilidade de raciocínio onde as concepções filosóficas racionalistas, embora denotando uma leitura superficial, se entrechocam com religiosidade profunda do seu ser, enfim, pela percursora obsessão da morte que o impele para o tétrico e para o macabro, em angustiantes páginas de desespero perante a impossibilidade da eternidade, essa mesma que ele denunciara como pavorosa ilusão.

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