Luis Nassif em seu Advivo
Nesses dias tenho procurado
expor os novos valores que passam a dominar a política brasileira. São ideias
cujo tempo certo chegou, para usar a expressão de Abraham Lincoln.
O grande problema
brasileiro é a falta de instituições que garantam a continuidade dessas novas
ideias, desse novo tempo. O primeiro problema sério é o Congresso e o modelo
político. Ninguém sabe a rigor quem é seu representante no Congresso. Existem
deputados bancados por empresas, por setores, grupos ou corporações.
Na verdade, essa
pulverização é própria da Câmara Federal que, espera-se, represente um leque
variado de interesses setoriais ou regionais. O problema é o financiamento público
de campanha que terminou por jogar nos braços dos grandes grupos a definição da
lista de candidatos partidários (escolhe-se quem tem mais possibilidade de
trazer financiamento para o partido). Ou seja, os agentes orquestradores das
demandas deveriam ser os partidos políticos, definindo programas claros. Mas
não existem.
Esse modelo levou aos
governos de coalizão e a crises institucionais periódicas, lembra o leitor Igor
Cornelsen, que vão do suicídio de Vargas, à renúncia de Jânio, ao golpe de 1964
e ao impeachment de Collor.
Outro ponto sensível é a
questão do desenvolvimento.
Na Ásia, o modelo econômico
é o mesmo, com a busca da industrialização, do crescimento, da inovação, do
emprego qualificado. Entra governo, sai governo, mantém-se os mesmos valores e
as mesmas linhas de ação.
No Brasil, depende do
governo de plantão. FHC e o governo Lula (até a crise de 2008) vieram a reboque
dos ventos internacionais. Só quando a crise internacional explodiu, o País
conseguiu se livrar da inércia na política econômica.
Agora, tenta-se retomar o
desenvolvimentismo, mas com enormes dificuldades em todas as áreas, em sistemas
de controle, na mídia, nos setores ambientalistas, nas próprias empresas
(muitas delas inconformadas com redução de margem). É só analisar o problema de
definir um câmbio competitivo, dos custos do investimento e da falta de
competitividade da empresa nacional.
Não se trata, portanto, de
um sentimento capaz de garantir o projeto de desenvolvimento independentemente
do presidente do momento.
A falta dessas ideias
mobilizadoras torna o quadro político instável. Não existem partidos
programáticos. O PSDB tentou ser social-democrata, tornou-se neoliberal no
período FHC e hoje em dia não é nada. No PT convivem desde linhas de pensamento
amplamente estatizantes até setores que buscam a social-democracia.
Tem-se em Dilma Rousseff e
Fernando Haddad um modelo social-democrata claro, com atuação indutora forte do
Estado e parceria com a sociedade civil – empresas privadas, organizações
sociais etc. Mas seria um pensamento consolidado no partido? Não é certo.
São duas realidades
desafiadoras. Numa ponta, a internet, avalanche de novas ideias que brota das
discussões públicas nas redes sociais; novos grupos sendo incluídos no debate.
Na outra, um aparato institucional anacrônico, dos partidos políticos às
máquinas estaduais e federal, passando pelos demais poderes – incluindo a
mídia.
Este será o desafio das
próximas décadas: criar instituições suficientemente dinâmicas para absorver o
novo.
***
Luis
Nassif
Ontem [texto acima]
expus as dificuldades principais para a consolidação de valores e de políticas
públicas no País: a falta de âncoras conceituais, de valores incutidos no
pensamento nacional, que definam ações permanentes, independentemente do
governante de plantão.
Historicamente, a rigor
apenas a Escola Superior de Guerra (ESG) – e as Forças Armadas –, talvez o
Itamaraty e em alguns momentos o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES) lograram alguma espécie de pensamento estratégico sistemático.
A grande âncora do
desenvolvimento chinês é o Partido Comunista Chinês e suas correias de
transmissão de conceitos. É um modelo autocrático que não serve para o Brasil.
No modelo democrático
norte-americano, há uma correia de transmissão que começa na academia,
propaga-se pelos chamados think
tanks (centros de pensamento
estratégico), de lá para os partidos políticos e, deles, para os
correligionários, incluindo a mídia aliada.
Aqui é mais difícil.
A indústria possui
instituições como o Instituto para Estudos de Desenvolvimento Industrial
(Iedi), importante para acompanhamento conjuntural, mas que há tempos deixou de
ser um propagador dos ideários do setor. O mercado de capital teve o Ibmec. Mas
a ideologia de mercado atual é defendida por sites preocupados exclusivamente
em demonizar gastos públicos e políticas sociais – o melhor caminho para
estigmatizar uma ferramenta relevante, como o mercado.
E os partidos políticos muitas
vezes patinam nessas definições programáticas.
Tome-se o caso do PT. Em
1993, a cúpula partidária – conduzida pelo então economista Aloizio Mercadante
– soltou um manifesto puxando o PT para o centro, à luz dos ventos
liberalizantes da era Thatcher. Houve grita geral obrigando a um recuo. De lá
em diante, evitaram-se definições programáticas mais nítidas, para não provocar
dissensões. Só após a eleição de Lula em 2002, com a Carta aos Brasileiros,
permitiram-se definições mais claras, que terminaram por consolidar o partido
no espectro da social-democracia.
Já o PSDB beneficiou-se de
uma sólida aliança com a grande mídia do eixo Rio–São Paulo. Mas não havia
nenhuma definição programática, nem do lado do partido nem de seus candidatos.
Consequência: todo o aparato midiático foi utilizado somente para propagar o
“anti” – o antipetismo, o antilulismo, o antipolíticas sociais, o anti-Bolsa
Família.
O novo não surgirá do
velho.
A nova militância e as
novas formas de propagação do novo pensamento estão sendo formados nas redes
sociais. Novos personagens estão surgindo, novas formas de participação, do
botão “curtir” às petições on-line. É apenas o início. O futuro dos partidos
políticos está naqueles que entenderem a dimensão das redes sociais.
Não se trata de armar
correligionários para batalhas sangrentas e inconsequentes em twitters e
facebooks, mas de saber captar os grupos de interesse especializados, desde as
manifestações culturais do Brasil profundo e os movimentos de favela e
periferia, até os novos empreendedores, os grupos de interesse regionais e o
pensamento acadêmico de ponta.
É tarefa que exige
desprendimento para se abrir para novo, para democratizar as instâncias
internas do partido e definir formas permanentes de renovação de seus quadros.
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T. M.

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