sábado, 23 de fevereiro de 2013

Saudade…


A trabalhar em oncologia, há anos, ainda caloiro na actuação profissional, posso afirmar que cresci e me modifiquei com os dramas vividos pelos meus pacientes…

Não conhecemos a nossa verdadeira dimensão até que, tomados pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além…

Recordo com emoção o hospital em Paris, onde dei os primeiros passos nessa área; comecei pela enfermaria infantil e apaixonei-me pela pediatria oncológica.

Vivi os dramas dos meus pacientes, inocentes crianças vítimas de cancro.

Anos mais tarde comecei a acobardar-me com o sofrimento das crianças, com o nascimento do meu primeiro filho.

Mas, um belo dia, chegou um verdadeiro anjo à enfermaria! Veio na forma duma criança com onze anos, calejada por dois longos anos de tratamentos diversos, manipulações, injecções e todos os desconfortos trazidos pelos programas químicos e de radioterapia. Mas nunca vi o pequeno anjo fraquejar.

Vi-o chorar muitas vezes; vi também o medo nos seus olhitos, mas isso é humano!

Um dia, bem cedo, cheguei ao hospital e encontrei-o sozinho no quarto.

 Perguntei-lhe pela mãe. A resposta que recebi ainda hoje, passados tantos anos, não consigo contá-la sem profunda emoção.

«Zé, às vezes a minha mãe sai do quarto para chorar às escondidas no corredor… quando eu morrer, penso que ela vai ficar com muitas saudades. Mas eu não tenho medo de morrer. Não nasci para esta vida!»

Perguntei-lhe: “Que representa para ti a morte?” «Olha, quando somos pequenos, às vezes vamos dormir na cama dos nossos pais e, no outro dia, acordamos na nossa cama, não é?»

“Sim, assim acontece.” «Pois, um dia vou dormir na cama e o meu Pai vem-me buscar e acordarei na Sua casa, na minha verdadeira vida!»

Fiquei entupido, sem saber que dizer, chocado com a maturidade com que o sofrimento acelerou a visão e espiritualidade daquela criança. «E a minha mãe vai ficar com saudades», acrescentou o pequeno.

Emocionado, sentindo uma lágrima e um soluço, perguntei: “E, que significa para ti a saudade?” «Saudade, Zé, é o amor que fica!»

Hoje, com 50 anos de idade, desafio qualquer um a dar uma definição melhor, mais directa e simples para a palavra. Saudade: o amor que fica!

E, o meu anjo foi-se há longos anos. Mas deixou-me uma grande lição, que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com os meus doentes, a repensar os meus valores. E quando a noite chega, se o céu está limpo e vejo uma estrela, chamo pelo “meu anjo”, que brilha e resplandece no céu.

Imagino-o uma fulgurante estrela na sua nova e eterna casa.

Obrigado, meu anjo, pelo que me ensinaste. É bom ter saudades. O amor que ficou é eterno.

Sejamos mais humanos com as pessoas. Cada uma que connosco convive está a travar algum tipo de batalha. E lembremo-nos que somos especiais e que não estamos aqui por acaso.

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