quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

«PENSAMENTOS DE MARCO AURÉLIO - I»


…Em meu pai se revia a mansidão mas também a firmeza inabalável nas decisões estudadas com peso e detenção; a indiferença à vanglória tirada do que o mundo chama honrarias; o amor do trabalho e a perseverança, a atenção prestada aos que eram capazes de trazer algum aviso útil ao bem público; a justiça sempre feita a cada qual inflexivelmente e consoante o mérito; a experiência que tinha para ajuizar quando se precisava de um esforço grande ou se bastava um agir mais frouxo; o cortar com o amor que tivera a alguns moços; a sociabilidade; a liberdade dada aos amigos de não comerem sempre à sua mesa nem de o acolitarem por obrigação nas viagens, mas pelo contrário o encontrarem sempre com o mesmo rosto, quando por força de alguma necessidade o tinham desamparado algum tempo; o cuidado que punha em examinar os negócios de perto nos conselhos e em nunca por nunca abandonar um inquérito começado, fiando-se nas primeiras aparências; o quanto era afeiçoado aos amigos sem deles se enojar nem a eles se prender fora da razão; o bastar-se a si mesmo em tudo sem perder a serenidade; o prever de longe e o dispor com antecipação os negócios, atendendo à minúcia deles sem posturas teatrais; o calar as aclamações e lisonjas dirigidas à sua pessoa; a vigilância dedicada sem quebra aos grandes interesses do Império; a administração económica dos proventos públicos e a tolerância para com os que o criticavam nestas matérias; quanto aos deuses não lhe vi temor supersticioso, nem frente aos homens baixeza alguma para lhes captar a popularidade, por gosto de agradar, ou ganhar as boas graças da multidão; o que lhe vi foi sobriedade em tudo, firme procedimento, sem quebra à regra de vida nem desejo de inovações; o uso dos bens que propiciam comodidades à vida – e a Fortuna, neste ponto, enchera-lhe as arcas – era tal que sem vaidade nem falsas invocações fazia colheita desses bens com simplicidade, pois que os tinha à mão; a virem-lhe a faltar era certo que não lhes sentiria a falta; ninguém se atreveria a chamar-lhe charlatão, gozador ou pedante; pelo contrário, todos viam nele um homem amadurecido, acabado, insensível á lisonja, sabendo orientar os negócios dos outros além dos seus próprios; ademais, os respeitos com que rodeava os verdadeiros servos da filosofia eram grandes; quanto aos outros, sem os ofender, não se engodava com as suas falinhas; a sua conversação era cortês, era amável, sem exageros de nenhuma espécie; o cuidado razoável que prestava ao corpo inculcava homem desprendido da vida, nem era emoliente nem negligente; por isso, graças aos cuidados dispensados à sua pessoa, não houve mister de recorrer à medicina nem às drogas para uso interno ou externo; sobretudo, o seu apagamento isento de inveja perante os homens em quem luzia algum talento, a eloquência, ponhamos o exemplo, o conhecimento das leis ou dos costumes ou de qualwuer outra ciência; e nada digamos da ajuda que lhes prestava a fim de obterem as honrarias que merecia a sua competência especial; seguindo sempre os costumes dos antepassados, mas sem se apontar como modelo neste ponto, com eles se ajustava; E olhem que não era pessoa que nunca estivesse bem onde estava e precisasse de agitação; não, deliciava-se com permanecer nos mesmos lugares, todos entregues às mesmas ocupações;

(Cont.)

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