quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

«O SISTEMA CAPITALISTA»



De modo que, no nosso sistema capitalista, a economia é duplamente canibal, ao privar os escravos da sua existência, mas, também, ao tornar frágil, precária e, até, caduca, a sua própria essência, inteiramente alienada na hipótese de uma procissão rumo ao Bem Único, do qual estão para sempre excluídos.

Depois das revoluções industriais e tecnológicas, é preciso acompanhar a revolução cibernática e informática.

No local em que, no século passado, a exploração podia ser traçada e seguida por um cartógrafo como Marx, já só existem sucedâneos, entrepostos desertos, fábricas vazias, armazéns abandonados.

Descentralizações, deslocalizações, desterritorializações (diria Deleuze), as instâncias que possibilitam a desigual distribuição das riquezas são invisíveis, impalpáveis, só podem se localizáveis através dos factos e dos danos às vezes susceptíveis de ser registados: um indivíduo que enriquece, outro que entra em bancarrota; aqui é uma sociedade anónima que aparece, acolá é uma região massacrada e, sempre, a grande maioria que permanece na miséria, sofrendo e suportando estes efeitos de fluxos monetários.

Semelhante ao Deus dos teístas, o capital flutuante nunca aparece directamente, mas sempre enquanto encarnação, efeito produzido, obra realizada.

Políticos que mentem ao povo, pretendendo que este se submeta aos seus desejos, únicos viáveis, povo que assentou arraiais na fome e na miséria, graças aos roubos cometidos por políticos desonestos, que mentem constantemente aos cidadãos.

Que exige aquele deus como tipo de adoração, veneração ou culto? Uma dedicação ilimitada, uma submissão sem limites.

Ele transforma multidões, povos, populações em  rebanhos humanos forçados a prostituir-se. Pois o modo de enfeudamento do singular a este novo universal invisível é bem a prostituição que possui uma relação íntima com a escravatura.

Como? Escravos e prostitutas não são donos de si próprios, estão despojados do uso independente, livre e autónomo dos seus corpos.

Segundo as análises de Aristóteles, os primeiros definem-se como instrumentos que têm como objectivo a acção.

Não são senhores de si, pois são propried dos seus amos e dos que, numa troca miserável e desgraçada, lhes fornecem a pitança, o salário, os meios para sobreviver ou para viver, mas mais nada.

Ao lado dos animais domésticos, o escravo e a prostituta vêem o corpo investido, invadido, possuído, marcado, requerido para as necessidades do serviço, da produção, da despesa destinada a produzir benefícios e reinvestimentos.

A economia é a ciência desta alquimia canibal enquanto funcionar separadamente, submetendo o político à sua ordem, à sua lei.

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