De modo que, no nosso sistema capitalista, a economia é
duplamente canibal, ao privar os escravos da sua existência, mas, também, ao
tornar frágil, precária e, até, caduca, a sua própria essência, inteiramente
alienada na hipótese de uma procissão rumo ao Bem Único, do qual estão para
sempre excluídos.
Depois das revoluções industriais e tecnológicas, é
preciso acompanhar a revolução cibernática e informática.
No local em que, no século passado, a exploração podia
ser traçada e seguida por um cartógrafo como Marx, já só existem sucedâneos,
entrepostos desertos, fábricas vazias, armazéns abandonados.
Descentralizações, deslocalizações, desterritorializações
(diria Deleuze), as instâncias que possibilitam a desigual distribuição das
riquezas são invisíveis, impalpáveis, só podem se localizáveis através dos
factos e dos danos às vezes susceptíveis de ser registados: um indivíduo que
enriquece, outro que entra em bancarrota; aqui é uma sociedade anónima que
aparece, acolá é uma região massacrada e, sempre, a grande maioria que
permanece na miséria, sofrendo e suportando estes efeitos de fluxos monetários.
Semelhante ao Deus dos teístas, o capital flutuante nunca
aparece directamente, mas sempre enquanto encarnação, efeito produzido, obra
realizada.
Políticos que mentem ao povo, pretendendo que este se
submeta aos seus desejos, únicos viáveis, povo que assentou arraiais na fome e
na miséria, graças aos roubos cometidos por políticos desonestos, que mentem
constantemente aos cidadãos.
Que exige aquele deus como tipo de adoração, veneração ou culto? Uma dedicação ilimitada, uma submissão sem limites.
Ele transforma multidões, povos, populações em rebanhos humanos forçados a prostituir-se.
Pois o modo de enfeudamento do singular a este novo universal invisível é bem a
prostituição que possui uma relação íntima com a escravatura.
Como? Escravos e prostitutas não são donos de si
próprios, estão despojados do uso independente, livre e autónomo dos seus corpos.
Segundo as análises de Aristóteles, os primeiros
definem-se como instrumentos que têm como objectivo a acção.
Não são senhores de si, pois são propried dos seus amos e
dos que, numa troca miserável e desgraçada, lhes fornecem a pitança, o salário,
os meios para sobreviver ou para viver, mas mais nada.
Ao lado dos animais domésticos, o escravo e a prostituta
vêem o corpo investido, invadido, possuído, marcado, requerido para as
necessidades do serviço, da produção, da despesa destinada a produzir
benefícios e reinvestimentos.
A economia é a ciência desta alquimia canibal enquanto
funcionar separadamente, submetendo o político à sua ordem, à sua lei.

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