Empanturrados de sensações e do seu corolário, o devir,
somos seres não libertos, por inclinação e por princípio, condenados de
eleição, presas da febre do visível, pesquisadores desses enigmas de superfície
que estão à altura do nosso desânimo e da nossa trepidação.
Se queremos recuperar a nossa liberdade, devemos pousar o
fardo da sensação, deixar de reagir ao mundo através dos sentidos, romper os
nossos laços.
Ora, toda a sensação é um laço, tanto o prazer como a
dor, tanto a alegria como a tristeza. Só se liberta o espírito que, puro de
toda a conivência com seres ou com objectos, se aplica à sua vacuidade.
Resistir à sua felicidade é coisa que a maioria consegue;
a infelicidade, no entanto, é muito mais insidiosa.
Já a provaram? Jamais se sentirão saciados, procurá-la-ão
com avidez e de preferência nos lugares onde ela não se encontra, mas
projectá-la-ão em vós mesmos, porque, sem ela, tudo lhes parecerá inútil e
baço.
Onde quer que a infelicidade se encontre, expulsa o
mistério ou torna-o luminoso. Sabor e chave das coisas, acidente e obsessão,
capricho e necessidade, far-vos-á amar a aparência no que ela tem de mais
poderoso, de mais duradouro e de mais verdadeiro, a amarrar-vos-á para sempre
porque, “intensa” por natureza, é, como toda a “intensidade”, servidão,
sujeição.
A alma indiferente e nula, a alma desentravada – como chegar
a ela? E como conquistar a ausência, a liberdade da ausência? Tal liberdade
jamais figurará entre os nossos costumes, tal como neles não figurará «o sonho
do espírito infinito».
Para nos identificarmos com a doutrina vinda de longe,
seria necessário que a desposassemos sem restrições: de que serve aceitar as
verdades se rejeitamos a transmigração, base da ideia de renúncia?

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