Tudo passa para a vida e nada passa para a
conta. A verdade e desengano de que tudo passa (que é o primeiro ponto), posto
que seja por uma parte tão evidente que parece não há míster prova, é por outra
tão dificultoso, que nenhuma evidência basta para o persuadir.
Lede os filósofos, lede os profetas, lede os Apóstolos, lede os Santos Padres, e vereis como todos empregaram a pena, e não um
senão muitas vezes, e com todas as forças da eloquência, na declaração deste
desengano, posto que por si mesmo tão claro.
Sabiamente falou quem disse que a perfeição
não consiste nos verbos, senão nos advérbios; não em que as nossas obras sejam
honestas e boas, senão que sejam bem feitas.
E para que esta condicional tão importante se
estendesse também às coisas naturais e indiferentes, inventou o Apóstolo S.
Paulo um notável advérbio.
E qual foi? «Sois casado? (diz o Apóstolo),
pois empregai todo o vosso cuidado com Deus, como se o não foreis. Tendes
ocasiões de tristeza? Pois chorai, como se não choráreis. Não são de tristeza,
senão de gosto? Pois alegrai-vos, como se não vos alegrareis.
Comprastes o que havieis mister, ou desejáveis?
Pois possuí-o, como se não possuiréis.
Finalmente usais de alguma outra coisa deste
Mundo? Pois usai dela, como se não usaréis». De sorte que quanto há ou pode
haver neste Mundo, por mais que nos toque no mor, na utilidade, no gosto, a
tudo quer S. Paulo que acrescentemos um como se não.
Como se não houvera tal coisa, como se não
fora nossa, como se não nos pertencera. E porquê?
Vede a razão: «Porque nenhuma coisa deste
Mundo pára ou permanece: todas passam.» E como todas passam e são como se não
foram, assim é bem que nós usemos delas, «como se não usáramos».
Por isso,
essas mesmas coisas não lhes chamou o oráculo do terceiro céu coisas,
senão aparências, e ao Mundo não lhe chamou Mundo, senão figura do mundo: «porque
a figura deste mundo passa».

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