quarta-feira, 21 de agosto de 2013

«OS FALSOS PURITANOS»

Nada mais irritante que esses artigos que apresentam bem ordenadas as ideias densas de um espírito que se preocupou com tudo menos com a vida em si, com a realidade de toda a miséria que actualmente se vive no Mundo?

De que serve dar uma aparência de coerência às de Nietzsche, a pretexto de que se movem em torno de um motivo central? Nietzsche é uma soma de atitudes, e é rebaixá-lo procurar nele uma vontade de ordem, uma preocupação de unidade.

Cativo dos seus humores, registou-lhes as variações. A sua filosofia, meditação acerca dos seus caprichos, é erradamente considerada pelos eruditos como portadora de constantes, que se trataria de evidenciar, quando tudo nela as recusa.

A ideia fixa do sistema não é menos suspeita quando se aplica  ao estudo dos místicos. Trata-se de uma atitude ainda tolerável no caso de Mestre Ekhart, porque ele próprio teve o cuidado de disciplinar o seu pensamento: pois nõ era ele um pregador?

Um sermão, por inspirado que seja, tem a ver com o curso, expõe uma tese e esforça-se por a fundamentar de modo convincente..

Mas, que dizer de um Angelus Silesius, cujos dísticos se contradizem a gosto, possuindo apenas um tema comum: Deus – e este é apresentado sob tantos rostos que se torna difícil identificar o verdadeiro?

O Viajante Querubínico, sucessão de afirmações inconciliáveis, cheio de um  grande e confuso esplendor, exprime apenas os estados de alma estritamente subjectivos do seu autor: querer mostrar a sua unidade, o seu sistema, é arruinar a sua força de sedução.

Angelus Silesius preocupa-se menos com Deus do que com o seu próprio deus. O resultado é uma multiplicidade de insânias poéticas, de molde a desencorajar o erudito e a aterrar o teólogo. Mas, nada disso se verifica. Um e outro esforçam-se por pôr em boa ordem as afirmações de Silesius, por simplificá-las, por extrairem delas uma ideia precisa.

Maníacos do rigor, querem saber o que pensava o autor da eternidade e da morte. Que pensava ele? Pensava as coisas mais diversas. São experiências suas, pessoais e absolutas.

Quanto ao seu Deus, nunca terminado, sempre imperfeito e mutante, o autor regista os seus momentos e traduz o seu devir num pensamento não menos imperfeito e mutante.

Desconfiemos do definitivo, afastemo-nos dos que pretendem possuir uma visão exacta acerca do que quer que seja. O facto de em certo dístico Angelus Silesius assimilar a morte ao mal e num outro ao bem, só por falta de probidade e de humor nos surpreenderia.

Como é que em nós que devém a própria morte, consideremos as suas etapas, as suas metamorfoses, encerrá-la numa fórmula é detê-la, sabotá-la?


O místico não vive os seus êxtases nem as suas repulsas nos limites de uma definição: a sua pretensão não é satisfazer as exigências do pensamento, mas sai as das sensações. E tende para  sensação muito mais ainda do que o poeta, uma vez que é por meio dela que confina com Deus.

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