Nada mais irritante que esses artigos que
apresentam bem ordenadas as ideias densas de um espírito que se preocupou com
tudo menos com a vida em si, com a realidade de toda a miséria que actualmente
se vive no Mundo?
De que serve dar uma aparência de coerência
às de Nietzsche, a pretexto de que se movem em torno de um motivo central?
Nietzsche é uma soma de atitudes, e é rebaixá-lo procurar nele uma vontade de
ordem, uma preocupação de unidade.
Cativo dos seus humores, registou-lhes as variações.
A sua filosofia, meditação acerca dos seus caprichos, é erradamente considerada
pelos eruditos como portadora de constantes, que se trataria de evidenciar,
quando tudo nela as recusa.
A ideia fixa do sistema não é menos suspeita
quando se aplica ao estudo dos místicos.
Trata-se de uma atitude ainda tolerável no caso de Mestre Ekhart, porque ele
próprio teve o cuidado de disciplinar o seu pensamento: pois nõ era ele um
pregador?
Um sermão, por inspirado que seja, tem a ver
com o curso, expõe uma tese e esforça-se por a fundamentar de modo
convincente..
Mas, que dizer de um Angelus Silesius, cujos
dísticos se contradizem a gosto, possuindo apenas um tema comum: Deus – e este
é apresentado sob tantos rostos que se torna difícil identificar o verdadeiro?
O Viajante Querubínico, sucessão de
afirmações inconciliáveis, cheio de um
grande e confuso esplendor, exprime apenas os estados de alma
estritamente subjectivos do seu autor: querer mostrar a sua unidade, o seu
sistema, é arruinar a sua força de sedução.
Angelus Silesius preocupa-se menos com Deus
do que com o seu próprio deus. O resultado é uma multiplicidade de insânias
poéticas, de molde a desencorajar o erudito e a aterrar o teólogo. Mas, nada
disso se verifica. Um e outro esforçam-se por pôr em boa ordem as afirmações de
Silesius, por simplificá-las, por extrairem delas uma ideia precisa.
Maníacos do rigor, querem saber o que pensava
o autor da eternidade e da morte. Que pensava ele? Pensava as coisas mais
diversas. São experiências suas, pessoais e absolutas.
Quanto ao seu Deus, nunca terminado, sempre
imperfeito e mutante, o autor regista os seus momentos e traduz o seu devir num
pensamento não menos imperfeito e mutante.
Desconfiemos do definitivo, afastemo-nos dos
que pretendem possuir uma visão exacta acerca do que quer que seja. O facto de
em certo dístico Angelus Silesius assimilar a morte ao mal e num outro ao bem,
só por falta de probidade e de humor nos surpreenderia.
Como é que em nós que devém a própria morte,
consideremos as suas etapas, as suas metamorfoses, encerrá-la numa fórmula é
detê-la, sabotá-la?
O místico não vive os seus êxtases nem as
suas repulsas nos limites de uma definição: a sua pretensão não é satisfazer as
exigências do pensamento, mas sai as das sensações. E tende para sensação muito mais ainda do que o poeta, uma
vez que é por meio dela que confina com Deus.

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