quinta-feira, 30 de maio de 2013

"Portugal habituou-se a confiar na sorte"

Alexandre Soares dos Santos
O presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos disse, no início da conferência em que se apresenta o estudo sobre os 25 anos de Portugal na União Europeia, que "mais do que uma UE, somos hoje a imagem viva da desunião europeia".

A conferência começou com a intervenção de Alexandre Soares dos Santos, presidente da fundação que encomendou o estudo que, entre críticas quer ao estado do país quer a um certo tipo de desunião na UE, salientou a importância de uma Europa unida.

"Portugal habituou-se à dependência e a confiar na sorte", disse Alexandre Soares dos Santos, lembrando que "nunca como hoje o sonho europeu fez tanto sentido e também nunca esteve tão ameaçado".

"Mais do que uma UE, somos hoje a imagem viva da desunião europeia.

Gostava que Portugal assumisse os seus erros e percebesse que só é viável enquanto estado dentro do processo europeu", acrescentou.

"Espero que este estudo contribua para Portugal encontrar-se com a Europa", explicou.

Na conferência que decorre no Pátio da Galé, em Lisboa, estão cerca de 300 pessoas, entre elas o secretário de estado Pedro Lomba, o economista João Salgueiro, a ex-ministra da Saúde e atual presidente da Fundação Champalimaud, Leonor Beleza, ou o presidente da Portugal Telecom, Henrique Granadeiro.


A realidade documentada


Em Portugal é mais ou menos habitual argumentar-se politicamente com base em impressões ditadas pela observação superficial da realidade.

A lacuna tem muito que ver com a organização caótica e a revelação tardia de grande parte dos dados estatísticos que existem - onde, note-se, tem havido nos últimos anos assinaláveis e profundas melhorias - e, por outro lado, com falta de trabalho técnico e científico com expressão pública, fora do restrito âmbito académico, que cruze e interprete essa informação de forma compreensível para a opinião pública.

Tem, por isso, enorme relevância o trabalho que a Fundação Francisco Manuel dos Santos promoveu, com a colaboração do professor Augusto Mateus, sobre os efeitos económicos e sociais em Portugal do fluxo de Fundos Europeus, de 1986 até 2011.

Foram coligidos, cruzados e interpretados milhares de dados, foram comparadas as realidades do passado, do presente e dos outros países da União Europeia.

O resultado suscitará os mais diversos comentários - desde os que concluirão pelo êxito total da entrada do País na União Europeia aos mais eurocéticos - e permitirá opinar sobre o futuro - quer para os defensores de mais Estado na economia, como para os que pretendem o contrário.

Mas, com a ajuda do Diário de Notícias, essas ideias e essa diversidade democrática terão agora oportunidade de se sustentar em bases sólidas de argumentação.
Tarde e a más horas

Previsões não são medições da realidade da economia.

Não podem, assim, ser tomadas à letra.

Já a sequência das previsões, apresentadas por várias entidades - CE, FMI, BCE, OCDE ou Banco de Portugal -, indica-nos tendências, positivas ou negativas.

Não vale, pois, desqualificar hoje uma instituição - no caso, a OCDE - só porque as previsões que apresenta divergem para bastante pior das do Governo, quando, há uma escassa semana, foi o próprio primeiro-ministro a deslocar-se a Paris, para ouvir, da boca do sr. Gurría, na sede dessa mesma organização, as propostas para a reforma do Estado que lhe foram encomendadas.

Na sequência vertiginosa de previsões, que, de há dois anos e meio a esta parte, mais parece uma corrida para o abismo, o impensável está escrito em letra de forma:
segundo a OCDE, em 2013, o défice público em Portugal fica ao mesmíssimo nível do de 2012: -6,4%.

Como o PIB cai mais do que se previa, o efeito é o de fazer crescer ainda mais o montante da dívida do Estado, ultrapassando os 130% do PIB em 2014.

O Governo bem pode desvalorizar ou distribuir culpas.

Ninguém acredita que não se aperceba do alcance devastador destas previsões da OCDE.
Elas descrevem o impasse a que chegou a estratégia da redução do défice "custe o que custar".

Talvez por isso tenha o ministro da Economia reagido, reivindicando que a Europa assuma uma linha de relançamento económico, e tenha o ministro das Finanças reconhecido, pela primeira vez, que a retoma da economia tem de passar pela reanimação do mercado interno e não pode assentar, apenas, nas exportações.

Tarde e a más horas, mas acabam por reconhecê-lo!

É uma mudança de discurso.

Que infelizmente também começou primeiro lá fora.

=L. A. V.=


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