Comunicado do Comité
Central do PCP de 5 de Maio de 2013
O Comité Central do Partido Comunista Português, reunido a 5 de
Maio de 2013, analisou aspectos da evolução da situação económica e social –
traduzidos no agravamento da recessão e na degradação da situação social – e da
crise política e institucional decorrente da acção do governo que, à margem da
lei e contra a Constituição, compromete o regular funcionamento das
instituições perante a inteira cumplicidade do Presidente da República que age
à revelia das suas responsabilidades e deveres constitucionais. O Comité
Central debateu e definiu ainda as direcções fundamentais da intervenção
política do PCP, com vista à concretização da urgente demissão do governo, convocação
de eleições, rejeição do Pacto de Agressão e derrota da política de direita,
bem como da afirmação de uma política e um governo patrióticos e de esquerda. O
Comité Central procedeu a uma avaliação da luta de massas e das medidas a
adoptar para o seu desenvolvimento, fixou as tarefas essenciais à preparação
das eleições autárquicas e ao trabalho com vista ao reforço orgânico do PCP.
1. Dois
anos de Pacto de Agressão: Um rumo de desastre económico e social.
1. A subscrição do Pacto de
Agressão por parte do PS, PSD e CDS e a sua execução estão a conduzir o País
para o abismo económico e social.
Tinha razão o PCP
quando, em 5 de Abril de 2011, alertou para o rumo de desastre nacional a que a
ilegítima decisão de acorrentar o País ao chamado programa de ajustamento
assinado com a União Europeia, o FMI e o BCE conduziria.
Passados dois
anos, o País está mergulhado numa espiral de austeridade e recessão económica
com consequências dramáticas nos planos económico e social. Este é o resultado
de um Pacto de Agressão e de uma política que, ao serviço da acumulação
capitalista e dos lucros dos grupos monopolistas, concebida para aumentar a
exploração dos trabalhadores e destruir direitos e conquistas sociais, está a
empurrar o País para o empobrecimento, o declínio e a crescente dependência.
Dois anos em que
todos os principais indicadores económicos e sociais se agravaram: uma recessão
acumulada de – 5,5% do PIB; um aumento em mais de 430 mil do número de
desempregados que ultrapassam já 1 milhão e 400 mil; uma redução média dos
salários reais de 9,2%; uma quebra de 10% no consumo das famílias; mais de 250
mil portugueses, na sua maioria jovens, obrigados a emigrar; uma dívida pública
que, tendo aumentado neste período 48 mil milhões de euros, ascende ao valor
recorde de 123,6% do PIB.
2. Desmentindo todas as
infundadas previsões macro-económicas e promessas de retoma, a realidade
nacional expõe com dramáticas consequências o resultado de uma política que não
resolveu nenhum dos problemas do País e que se constitui como factor principal
para o seu agravamento. Uma política e um governo a que é preciso pôr termo.
A tentativa
ensaiada pelo governo de procurar apresentar como positiva a sétima avaliação
daTroika (que em si mesma confirma um futuro com mais recessão, mais desemprego
e menos perspectivas de saída para os problemas do País), constitui um
exercício de despudorada mistificação da realidade e um insulto à inteligência
dos portugueses, para procurar esconder as consequências do programa e
justificar novas e mais graves medidas.
Sob a capa de uma
chamada reforma do Estado e apresentando o Tribunal Constitucional e a
Constituição da República como a causa dos problemas que a sua política vem
acentuando, Passos Coelho em nome do governo PSD/CDS, anunciou a 3 de Maio um
novo programa de terrorismo social para dar continuidade ao Pacto de Agressão.
Novos roubos aos reformados, um novo assalto aos direitos dos trabalhadores, um
passo mais na liquidação de direitos, novos e arrasadores cortes na saúde, na
protecção social e na educação, um ataque aos militares e forças de segurança.
Ao mesmo tempo que mantém, designadamente, milhares de milhões de euros para os
juros da dívida, elevadas taxas de rendibilidade das PPP, rendas ilegítimas do
sector de energia, ruinosos seguros de crédito (swaps) e a continuada cobertura
dos prejuízos do BPN. Um programa que, reflectindo a natureza do capitalismo e
o agravamento da sua crise, atinge profundamente os interesses dos
trabalhadores e do povo.
Um passo mais no
caminho do desastre económico e social, uma nova declaração de guerra aos
trabalhadores, ao povo e ao País que o «Documento de Estratégia Orçamental,
2014-2016» já havia indiciado.
Um conjunto de
medidas devastadoras – que o orçamento rectificativo anunciado para este mês e
os Orçamentos de Estado seguintes revelariam, a não ser interrompida esta
política e a acção do governo, de forma ainda mais brutal – que não são
dirigidas especificamente aos trabalhadores da Administração Pública e aos
reformados. A devastação destas medidas atingirá toda a actividade económica, a
sobrevivência de milhares de empresas, a vida de milhões de famílias.
Em poucos dias a
manobra de propaganda ensaiada pela voz do ministro da Economia com a
apresentação da denominada «Estratégia para o Crescimento e Fomento Industrial
– 2013/2020» foi desmascarada com a divulgação daquele que é o único programa
que determina a acção do governo: o do aumento da exploração dos trabalhadores,
do retrocesso social e da austeridade para a maioria do povo, e privilégios
para o grande capital.
2. Um
insustentável processo de declínio económico, retrocesso social e abdicação
nacional
1. Perante o caminho de
desastre, governo e apoiantes da ingerência externa apresentaram, repetida e
falsamente, o ano de 2013 como sendo de viragem e de recuperação. Há pouco mais
de dois meses o País e o povo português ficaram a saber que os querem condenar
ao prolongamento da agonia económica e social por muitos anos.
A
“reestruturação” do memorando e da dívida que o Governo defende, constituindo
sem dúvida um sinal de reconhecimento pelo falhanço das medidas e condições do
Pacto de Agressão na resposta ao objectivo invocado de correcção dos
desequilíbrios estruturais do País, não põe em causa as gravosas imposições e
condicionantes do “memorando” de submissão e dependência, nem pretende romper
com a espiral de austeridade e recessão e assegurar um processo sustentável de
pagamento da componente legítima da dívida pública. Visam, bem pelo contrário,
procurar manter a margem de manobra que sabem estar a perder para poderem
prosseguir a concretização dos seus objectivos.
Cada “sucesso”
anunciado pelo governo significa um passo mais na concretização do projecto de
exploração, de declínio e de submissão. Cada avaliação da Troika é sinónimo de
novas medidas de austeridade e de roubo nos salários, pensões de reforma, e
outros rendimentos. O chamado alargamento das “maturidades”, na prática mais
prazo de pagamento sem alterações das condições dos juros e reavaliação dos
montantes dos empréstimos que nestas condições servirá essencialmente os
interesses dos credores (nomeadamente pelo aumento do volume dos juros a pagar)
mas não os do País, é apenas a moeda de troca para justificar novas medidas de
austeridade e um brutal ataque às funções sociais do Estado.
2. O compromisso com a Troika de
mais um pacote de medidas visando um novo assalto aos salários e rendimentos
dos trabalhadores e do povo revela um governo transformado num verdadeiro
conselho de administração do grande capital, do FMI e da União Europeia e
disposto a sacrificar os interesses nacionais e a vida dos portugueses aos
interesses do grande capital nacional e transnacional. A carta de vassalagem de
Passos Coelho aos credores internacionais não só desmente a cínica e
intolerável operação contra a decisão do Tribunal Constitucional, em si mesma
uma derrota do governo, como mostra que, desde há meses, o governo tem em vista
amarrar o País a um novo resgate.
3. O Comité Central do PCP
denuncia a posição da direcção do PS que, para lá das afirmações de oposição ao
governo, confirma que não quer afastar-se dos compromissos com o programa de
agressão ao País, amarrado aos objectivos e opções da política de desastre
nacional, vinculado aos interesses do grande capital e da estratégia de
subordinação que a União Europeia quer impor a Portugal. As referências
intermitentes à demissão do governo, que não correspondem a uma vontade
política real, as reiteradas juras de comprometimento e cumprimento do
“memorando”subscrito com a Troika enquanto factor de justificação para a sua
disponibilidade para examinar com o governo novos compromissos nos projectos de
exploração dos trabalhadores e no ataque a direitos e conquistas sociais, o silêncio
sobre a reposição dos direitos laborais, dos rendimentos e apoios sociais
roubados, os patéticos conselhos ao governo para mudar de política ou a critica
à “insensibilidade” dos credores, a recusa de uma verdadeira renegociação da
dívida e, mais em particular, o apelo do Secretário-Geral do PS, António José
Seguro dirigido a “sociais-democratas” e “democratas-cristãos” para que se unam
ao PS, expõem com clareza o objectivo de procurar, de novo, o poder absoluto
para preservar o essencial da política de direita e do rumo de submissão e de
desastre nacional que simula contestar.
4. Nada ilude a questão crucial
que a realidade nacional revela: um rumo insustentável imposto a um País
subjugado por uma dívida impagável. O que o País reclama perante o caos económico
e social a que o estão a conduzir é, não uma denominada “reestruturação do
Memorando”, mas sim a sua rejeição e a inadiável renegociação da dívida (nos
seus juros, prazos e montantes) proposta pelo PCP e que outras forças, sectores
e personalidades de diferentes áreas sociais e políticas crescentemente vêm
reclamando.
3. Uma
profunda crise política e institucional. Uma inquietante deriva antidemocrática
O País assiste a
um verdadeiro assalto às instituições democráticas por parte de quem tem um
projecto de entrega dos interesses nacionais, de colaboração com o programa de
centralização e concentração de capitais, com a exploração e empobrecimento do
povo português e de pilhagem dos recursos do País e dos rendimentos dos
trabalhadores e do povo.
Os mais recentes
desenvolvimentos põem em evidência um governo socialmente isolado e
politicamente derrotado que, à revelia de promessas eleitorais, procura
desesperadamente agarrar-se ao poder para prosseguir a destruição da vida dos
portugueses e do País.
Um Governo, uma
maioria e uma política fora da lei, em confronto com a Constituição da
República, que estão a impor, na prática, um verdadeiro estado de excepção. Um
governo, uma maioria e uma política que assumem na sua acção a Lei Fundamental
do País como um obstáculo aos seus projectos, que vêem em outras instituições,
como os Tribunais ou as magistraturas, alvos a abater, que suspendem princípios
básicos do funcionamento da Administração e do Estado. Um governo, uma maioria
e uma política que há muito puseram em causa o regular funcionamento das
instituições perante o apoio activo e cúmplice de um Presidente da República –
ostensivamente exposto no seu discurso a 25 de Abril na Assembleia da República
– que se confirma hoje aos olhos do País como parte do problema.
Ao contrário do
que o governo PSD/CDS de Passos Coelho e Paulo Portas afirma não é nem a
Constituição, nem os portugueses a quem manda emigrar que estão a mais no País.
Quem está a mais é o governo, a maioria parlamentar e a sua política, o Pacto de
Agressão e o Presidente da República que se assume como mero patrocinador de um
governo ilegítimo.
Quando se
inscreve como objectivo de uma política a subordinação da democracia e a
liquidação prática de algumas das suas expressões ao projecto de dependência
externa que têm em curso, não é só o futuro do País que está ameaçado, é o
regime democrático e constitucional que está a ser posto em causa.
Nesta situação, o
PCP sublinha a particular importância de as Forças Armadas e as forças de
segurança, recusarem a sua instrumentalização ao serviço da acção
inconstitucional do Governo, da maioria parlamentar que o apoia e do Presidente
da República que o sustenta, assumindo o compromisso que têm de servir o Povo e
o País no respeito pela Constituição.
Nesta situação é,
ainda mais, aos trabalhadores e ao povo a quem cabe, com a sua luta, o
exercício pleno dos seus direitos constitucionais, incluindo o direito de
resistência, defender a democracia e as liberdades, afirmar o primado da Lei
fundamental, garantir a independência nacional e projectar os valores de Abril
no futuro de Portugal.
4. Demitir
o governo, rejeitar o Pacto de Agressão, derrotar a política de direita –
tarefa central de todos os democratas e patriotas
É urgente romper
com o rumo de desastre nacional e derrotar a intensa campanha ideológica
suportada em falsas inevitabilidades e em fantasiosas promessas de retoma.
É preciso optar
entre a postura de aceitação de um País subjugado e ocupado a que governo,
grande capital e promotores da política de direita querem condenar Portugal ou,
pelo contrário, por uma atitude de afirmação de um País liberto e soberano a
que aspiram todos os patriotas. Uma opção de clara rejeição de um programa para
impor um rumo de retrocesso e de alienação do direito a um desenvolvimento
soberano, centrado nos interesses nacionais e na garantia de condições de vida
dignas para o nosso povo.
É preciso optar
entre manter vivo um governo e uma política orientados para o domínio do grande
capital sobre a economia e a vida nacional, como desejam o Presidente da
República e os que querem ver perpetuada a política de direita ou, pelo
contrário, uma política que inscreva como objectivos centrais a elevação das
condições de vida dos trabalhadores e do povo e a afirmação dos seus direitos,
inseparáveis da concretização de uma política e de um governo patrióticos e de
esquerda. Uma opção que reclama e exige a urgente demissão do governo, um
inequívoco compromisso de rejeição do Pacto de Agressão e de devolução e
reposição dos direitos e rendimentos roubados nos últimos anos.
É preciso optar
entre um governo e uma política subordinados aos “mercados” e especuladores,
inebriados e determinados pelos elogios dos que vêem na acção do governo um
instrumento eficaz de pilhagem dos recursos do País ou, pelo contrário, uma
política que assegure os direitos dos trabalhadores e do povo. Uma opção que
reclama a assunção pelo Estado português do comando das políticas económicas e
orçamentais.
A opção crucial
que está colocada aos trabalhadores, a todos os patriotas e ao povo é a de
libertar o País do rumo de submissão e afirmar o direito inalienável a um
Portugal desenvolvido, independente e soberano. Uma opção que rejeite a
política monetária e a utilização da moeda única, já não apenas como factor de
liquidação continuada de actividades e estruturas produtivas, mas também como
um instrumento de chantagem que, suportada na expropriação da soberania
monetária, visa justificar o caminho de afundamento económico. Uma opção que,
exigindo desde logo, e na actual conjuntura, a rejeição do Pacto de Agressão,
tem de inscrever como objectivo a ruptura com a política e orientações da União
Europeia em matéria orçamental, monetária e económica que visam perpetuar para
lá do horizonte dos programas de assistência e da Troika os projectos de
exploração, retrocesso, declínio e dependência que lhes estão associados.
O Comité Central
do PCP sublinha que a inadiável demissão do governo e a convocação de eleições
antecipadas é condição da maior importância para interromper o caminho de
desastre a que o País está a ser conduzido. E reafirma que a solução dos
problemas nacionais e a indispensável mudança de rumo é inseparável da rejeição
do Pacto de Agressão, da ruptura com a política de direita e com o processo de
integração capitalista europeu.
Alertando para a
ilusão de falsas soluções e alternativas, o PCP chama a atenção que só uma
política alternativa patriótica e de esquerda está em condições de dar resposta
aos problemas do País e às aspirações do povo português.
Num quadro em que
a demissão do governo e a convocação de eleições são um importante factor para
interromper o actual rumo, o Comité Central do PCP reitera que a principal e
mais decisiva condição para assegurar a ruptura com a política de direita
reside na ampliação da corrente dos que reclamam a rejeição do Pacto de
Agressão e no crescente isolamento dos que executam e sustentam o “memorando”
subscrito com o FMI e a União Europeia.
O Comité Central
do PCP dirige-se aos sectores e forças políticas e sociais, a todos os
patriotas e democratas, a todas as personalidades que séria e convictamente
estejam empenhadas em resgatar o País do declínio e da dependência e em
devolver ao País e aos trabalhadores o que lhes foi roubado, para que, com base
num conjunto de objectivos e orientações cruciais, unam os seus esforços,
conhecimentos e disponibilidade para dar corpo a uma outra política.

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