domingo, 8 de setembro de 2013

VIAGEM AO PRINCÍPIO DO TEMPO

Viajar em imaginação é fácil. Pode supor-se, portanto, que, devido a qualquer condão mágico, nos é possível regressar neste mesmo momento, ao princípio do mundo.

Dirá alguma coisa o número 4004?

Trata-se do ano em que, segundo os remotos cálculos e remotas teorias que, aliás, desapareceram na poeira dos tempos, o mundo surgiu, subitamente no ano 4004 antes de Cristo.

Contudo, hoje já não se pensa assim.

Sabe-se que o mundo existe há muito tempo. E pelo estudo das rochas velhinhas, chegou-se à conclusão de que o mundo tem a bela idade de um bilião e seiscentos milhões de anos.

Já pensaram no que isso representa? Se o escreverem, depararão com uma data de zeros.

Vamos fazer de conta que estamos no princípio do mundo e que a terra começou agora mesmo a girar.

Algum «regisseur», talvez anunciasse assim esse espectáculo alucinante:

«Senhoras e senhores, estamos diante de um espectáculo verdadeiramente extraordinário.

A Terra – essa bola enorme, ligeiramente achatada e cujo diâmetro mede cerca de dez mil quilómetros – começou agora mesmo a girar e parece uma fornalha incandescente ou um vulcão, em que a lava ainda não se derreteu.

À volta da terra não há a mínima parcela de água, pois toda ela se encontra  em estado de vapor, aquecida ao máximo por essa atmosfera tempestuosa de enxôfre e de metais em fusão.»

E diante das chamas crepitando, envolvendo a terra num abraço de fogo, o «regisseur», impávido e sereno, continuaria:

«O mundo agora é apenas um grande oceano de rochas fendidas a girar, enquanto o Sol e a Lua rapidamente correm num céu coberto de nuvens rubras.

O Sol e a Lua passam como meteoros de chamas – a terra inteira é um incêndio girando e girando…»

Assim falaria qualquer «regisseur de hoje ao anunciar o princípio do mundo.

Mas, nesse tempo – há um bilião e seiscentos milhões de anos – não existiam «regisseurs»… nem homens sequer.

E teriam de passar, ainda, alguns milhões de anos para que a paisagem do mundo fosse ficando menos incandescente e surgissem os primeiros habitantes do mundo.

Quem foram eles? Os primeiros sinais de vida foram posteriores às rochas azóicas e consistiriam em cascas de pequenos crustáceos, caules, cabeças de zoófitos parecidos com flores, ervas marinhas e restos de vermes do mar.

As mais antigas rochas do mundo chamaram-se azóicas, porque apenas apresentavam marcas de vagas e de chuvas e não possuíam vestígio algum de qualquer ser vivo.

Na verdade, o princípio do mundo devia ter sido muito engraçado… Mas, podem ter a certeza de que não havia o que hoje corrói as sociedades, as mina e destrói, destruindo também as aspirações da cidadania no mundo.

Só com o aparecimento do ser humano teve início uma nova era, que perdurou para todo o sempre e que será deveras difícil de erradicar – os políticos, a corrupção, a roubalheira, a pedofilia – na maioria das vezes impune desde que se trate de gente de certo peso na sociedade em que vive – a miséria humana, a fome de uns e a fartura de outros, mesmo após o grande dilúvio decretado e levado a cabo por Deus para punir os ímpios e oportunistas…

Eis um resumo do que foi o Princípio do Mundo, e todos serão capazes de fazer um retrato mais ou menos exacto do que hoje se vive na maioria das sociedades do mundo, que levou  cavar diferenças entre os seres humanos – os únicos considerados racionais e inteligentes, o que é um insulto aos restantes membros do reino animal que não conseguem falar ou viver autonomamente, precisamente porque o homem resolveu dominá-los por completo.

Há tempos não muito longínquos, ouvi alguém dizer que as verdadeiras «bestas» são as humanas, uma vez que tentam dominar os seus semelhantes seja de que forma for, mas sobretudo usando das mais ignóbeis, como as guerras, fazendo acusações que não podem provar.



Sem comentários:

Enviar um comentário