Viajar em imaginação
é fácil. Pode supor-se, portanto, que, devido a qualquer condão mágico, nos é
possível regressar neste mesmo momento, ao princípio do mundo.
Dirá alguma coisa o
número 4004?
Trata-se do ano em
que, segundo os remotos cálculos e remotas teorias que, aliás, desapareceram na
poeira dos tempos, o mundo surgiu, subitamente no ano 4004 antes de Cristo.
Contudo, hoje já não
se pensa assim.
Sabe-se que o mundo
existe há muito tempo. E pelo estudo das rochas velhinhas, chegou-se à
conclusão de que o mundo tem a bela idade de um bilião e seiscentos milhões de
anos.
Já pensaram no que
isso representa? Se o escreverem, depararão com uma data de zeros.
Vamos fazer de conta
que estamos no princípio do mundo e que a terra começou agora mesmo a girar.
Algum «regisseur»,
talvez anunciasse assim esse espectáculo alucinante:
«Senhoras e senhores,
estamos diante de um espectáculo verdadeiramente extraordinário.
A Terra – essa bola
enorme, ligeiramente achatada e cujo diâmetro mede cerca de dez mil quilómetros
– começou agora mesmo a girar e parece uma fornalha incandescente ou um vulcão,
em que a lava ainda não se derreteu.
À volta da terra não
há a mínima parcela de água, pois toda ela se encontra em estado de vapor, aquecida ao máximo por
essa atmosfera tempestuosa de enxôfre e de metais em fusão.»
E diante das chamas
crepitando, envolvendo a terra num abraço de fogo, o «regisseur», impávido e
sereno, continuaria:
«O mundo agora é
apenas um grande oceano de rochas fendidas a girar, enquanto o Sol e a Lua
rapidamente correm num céu coberto de nuvens rubras.
O Sol e a Lua passam
como meteoros de chamas – a terra inteira é um incêndio girando e girando…»
Assim falaria
qualquer «regisseur de hoje ao anunciar o princípio do mundo.
Mas, nesse tempo – há
um bilião e seiscentos milhões de anos – não existiam «regisseurs»… nem homens
sequer.
E teriam de passar,
ainda, alguns milhões de anos para que a paisagem do mundo fosse ficando menos
incandescente e surgissem os primeiros habitantes do mundo.
Quem foram eles? Os
primeiros sinais de vida foram posteriores às rochas azóicas e consistiriam em
cascas de pequenos crustáceos, caules, cabeças de zoófitos parecidos com
flores, ervas marinhas e restos de vermes do mar.
As mais antigas
rochas do mundo chamaram-se azóicas, porque apenas apresentavam marcas de vagas
e de chuvas e não possuíam vestígio algum de qualquer ser vivo.
Na verdade, o
princípio do mundo devia ter sido muito engraçado… Mas, podem ter a certeza de
que não havia o que hoje corrói as sociedades, as mina e destrói, destruindo
também as aspirações da cidadania no mundo.
Só com o aparecimento
do ser humano teve início uma nova era, que perdurou para todo o sempre e que
será deveras difícil de erradicar – os políticos, a corrupção, a roubalheira, a
pedofilia – na maioria das vezes impune desde que se trate de gente de certo
peso na sociedade em que vive – a miséria humana, a fome de uns e a fartura de
outros, mesmo após o grande dilúvio decretado e levado a cabo por Deus para
punir os ímpios e oportunistas…
Eis um resumo do que
foi o Princípio do Mundo, e todos serão capazes de fazer um retrato mais ou
menos exacto do que hoje se vive na maioria das sociedades do mundo, que
levou cavar diferenças entre os seres
humanos – os únicos considerados racionais e inteligentes, o que é um insulto
aos restantes membros do reino animal que não conseguem falar ou viver
autonomamente, precisamente porque o homem resolveu dominá-los por completo.
Há tempos não muito
longínquos, ouvi alguém dizer que as verdadeiras «bestas» são as humanas, uma
vez que tentam dominar os seus semelhantes seja de que forma for, mas sobretudo
usando das mais ignóbeis, como as guerras, fazendo acusações que não podem
provar.

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