Quando leio as Revelações de Marguerite
Ebner, e percorro as suas crises, o seu adorável inferno, invade-me o ciúme.
Durante dias inteiros, ela não conseguia
descerrar os dentes; quando, por fim, abria a boca, era para proferir gritos
que exaltavam e faziam tremer o convento.
E que dizer de Angela Foligno? Ouçámo-la: “Contemplo,
no abismo em que me vejo caída,
superabundância das minhas iniquidades, procuro inutilmente como as
descobrir e revelar ao mundo, gostaria de ir através das cidades e das praças,
com peças de carne e peixes pendurados ao pescoço, gritando: aqui está a
criatura vil!”
Temperamentos sanguíneos, comprazendo-se nos
extremos da degradação e da pureza, na vertigem dos meios subterrâneos e das
alturas, os santos não se adaptam aos nossos raciocínios nem às nossas
cobardias. Ver neles seres meditabundos é um erro completo.
Demasiado desenfreados, demasiado ferozes
para poderem deter-se na meditação (que supõe o controlo de si próprio e,
portanto, a mediocridade do sangue), se aspiram a descer até aos alicerces das
coisas, a via que os conduz até lá não é propriamente “reflexiva”.
Sem compostura, sem o mais pequeno vestígio
de estoicismo nos seus gestos e nas suas palavras, julgam que tudo lhes é
permitido, passeiam a sua indiscrição através dos corações que perturbam,
porque têm horror à paz, e não suportam uma alma conseguida. Condenar-se-iam a
si próprios para não terem que se aceitar.
Ouçamos de novo Angela Foligno: “Ainda que
todos os sábios do mundo e todos os santos do Paraíso me acabrunhassem com as
suas consolações e as suas promessas, e o próprio Deus com os seus dons, se
não me mudasse a mim, se não começasse no fundo de mim uma nova operação, em
vez de me fazerem bem, os sábios, os santos e Deus exasperariam para além de
tudo o que se pode exprimir o meu desespero, o meu furor, a minha tristeza e a
minha cegueira.”
Não deveríamos, frente a estas declarações e
a estas exigências, liquidar os nossos últimos restos de bom senso e lançar-nos
como bárbaros nas “trevas da luz?”
Como nos decidiremos, porém, a fazê-lo,
presos como estamos à enfermidade da modéstia? O nosso sangue é demasiado morno,
os nossos apetites demasiado domados. Não fica a menos possibilidade de irmos
para além de nós próprios. Até a nossa loucura é excessivamente comedida.
Derrubar as vedações do espírito, abalá-lo,
desejar a sua ruína – eis a fonte do que é novo! Tal como é, o nosso espírito
mostra-se avesso ao invisível ao invisível e não vê senão o que já sabe.
Para que se abra ao verdadeiro saber,
precisa de se desmantelar,, de atravessar os seus limites, de conhecer as
orgias do aniquilamento.
A ignorância não seria a nossa sorte se
ousássemos alçar-nos acima das nossas certezas e dessa timidez que,
impedindo-nos de operar milagres, nos enterra a nós próprios.
Não termos nós o orgulho dos santos!

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