quinta-feira, 6 de junho de 2013

«A CRIATURA VIL!»

Quando leio as Revelações de Marguerite Ebner, e percorro as suas crises, o seu adorável inferno, invade-me o ciúme.

Durante dias inteiros, ela não conseguia descerrar os dentes; quando, por fim, abria a boca, era para proferir gritos que exaltavam e faziam tremer o convento.

E que dizer de Angela Foligno? Ouçámo-la: “Contemplo, no abismo em que me vejo caída,  superabundância das minhas iniquidades, procuro inutilmente como as descobrir e revelar ao mundo, gostaria de ir através das cidades e das praças, com peças de carne e peixes pendurados ao pescoço, gritando: aqui está a criatura vil!”

Temperamentos sanguíneos, comprazendo-se nos extremos da degradação e da pureza, na vertigem dos meios subterrâneos e das alturas, os santos não se adaptam aos nossos raciocínios nem às nossas cobardias. Ver neles seres meditabundos é um erro completo.

Demasiado desenfreados, demasiado ferozes para poderem deter-se na meditação (que supõe o controlo de si próprio e, portanto, a mediocridade do sangue), se aspiram a descer até aos alicerces das coisas, a via que os conduz até lá não é propriamente “reflexiva”.

Sem compostura, sem o mais pequeno vestígio de estoicismo nos seus gestos e nas suas palavras, julgam que tudo lhes é permitido, passeiam a sua indiscrição através dos corações que perturbam, porque têm horror à paz, e não suportam uma alma conseguida. Condenar-se-iam a si próprios para não terem que se aceitar.

Ouçamos de novo Angela Foligno: “Ainda que todos os sábios do mundo e todos os santos do Paraíso me acabrunhassem com as suas consolações e as suas promessas, e o próprio Deus com os seus dons, se não me mudasse a mim, se não começasse no fundo de mim uma nova operação, em vez de me fazerem bem, os sábios, os santos e Deus exasperariam para além de tudo o que se pode exprimir o meu desespero, o meu furor, a minha tristeza e a minha cegueira.”

Não deveríamos, frente a estas declarações e a estas exigências, liquidar os nossos últimos restos de bom senso e lançar-nos como bárbaros nas “trevas da luz?”

Como nos decidiremos, porém, a fazê-lo, presos como estamos à enfermidade da modéstia? O nosso sangue é demasiado morno, os nossos apetites demasiado domados. Não fica a menos possibilidade de irmos para além de nós próprios. Até a nossa loucura é excessivamente comedida.

Derrubar as vedações do espírito, abalá-lo, desejar a sua ruína – eis a fonte do que é novo! Tal como é, o nosso espírito mostra-se avesso ao invisível ao invisível e não vê senão o que já sabe.

Para que se abra ao verdadeiro saber, precisa de se desmantelar,, de atravessar os seus limites, de conhecer as orgias do aniquilamento.

A ignorância não seria a nossa sorte se ousássemos alçar-nos acima das nossas certezas e dessa timidez que, impedindo-nos de operar milagres, nos enterra a nós próprios.


Não termos nós o orgulho dos santos!

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