Padilha: “A Igreja Católica rompeu com a
ditadura após o AI5 e a institucionalização da tortura no País.” Foto de José
Patrício/Estadão
Um grupo
de 11 pesquisadores, especialistas em questões religiosas e ligados à Comissão
Nacional da Verdade, vem se reunindo desde novembro em São Paulo. Eles se
dedicam a pesquisar as relações entre as igrejas brasileiras e a ditadura
militar.
Sob a coordenação de Anivaldo Padilha, metodista e membro do
Conselho Latino-Americano de Igrejas, o grupo trabalha neste momento com a
revisão da literatura já existente sobre o tema. Também estão sendo iniciadas
pesquisas em arquivos públicos. Numa segunda etapa serão colhidos depoimentos.
Padilha – que militou na organização de esquerda Ação Popular
(AP), foi perseguido, encarcerado e obrigado a se exilar – diz que a literatura
existente destaca sobretudo o papel da resistência da Igreja Católica à
ditadura. Mas essa seria apenas uma parte da história. Entre as lacunas
existentes e que devem ser pesquisadas pelo grupo, aparecem as questões do
apoio que as igrejas deram à ditadura, principalmente antes de 1968, e o papel
dos protestantes – ou evangélicos – naquele período histórico.
“As igrejas ajudaram a preparar o clima político que levou ao
golpe militar de 1964”, diz Padilha. Na avaliação dele, só houve rompimento com
a ditadura em 1968, quando ocorre a institucionalização da tortura e padres
começam a ser presos. A seguir, alguns dos principais trechos da conversa com o
coordenador do grupo.
O relatório do grupo vai focalizar as
perseguições que a Igreja Católica sofreu na ditadura?
Já existem muitas pesquisas e informações sobre os setores da
Igreja Católica que resistiram à ditadura e sofreram perseguições por causa
disso. Temos pouca coisa, porém, sobre a resistência entre os protestantes.
Vamos procurar mais informações sobre essa questão.
As igrejas sempre se opuseram à
ditadura?
Não. Houve um período em que elas apoiaram. Esse apoio aparece
de forma evidente no material sobre a preparação do golpe militar de 1964. Com
o clamor anticomunista imposto ao Brasil naqueles dias, as igrejas foram
utilizadas como instrumento político a favor do golpe. Ajudaram a preparar o
clima que levou à derrubada do governo constitucional. As manifestações da
Marcha da Família com Deus pela Liberdade foram o melhor exemplo disso.
Ingenuamente, ou deliberadamente, as igrejas ajudaram a legitimar o golpe.
Deram legitimidade religiosa.
E após o golpe?
Os estudos apontam que logo após o golpe não houve diferença
entre as ações das igrejas protestantes e a católica: todas continuaram
contribuindo para a legitimação da ditadura. Por meio de pronunciamentos e atos
oficiais, bispos e cardeais apoiaram os golpistas até o final de 1968, com a
promulgação do Ato Institucional nº 5 e a institucionalização da tortura como
método sistemático de interrogatório, a prisão de padres e a implantação de um
estado de terror. Foi nesse momento que a hierarquia católica reagiu de forma
firme contra a ditadura.
E os protestantes?
As principais lideranças das igrejas protestantes continuaram
apoiando o regime mesmo depois do AI-5. Foi só a partir de um determinado
momento, já na década de 1970, que começa a haver um fortalecimento da oposição
em setores protestantes e a sua aproximação com os católicos. De maneira geral,
tanto os católicos quanto os evangélicos, em termos de instituição, tiveram
posições dúbias em relação à ditadura. Não se deve ignorar, porém, que desde
antes do golpe existia um setor ecumênico que apoiava as reformas de base que
vinham sendo discutidas no Brasil e que se opunham à intervenção militar. É
preciso aprofundar a análise de todos esses aspectos.
A hierarquia católica na Argentina
também apoiou a ditadura. Foi diferente daqui?
Na Argentina, a Igreja Católica manteve seu apoio à ditadura
militar do início até o final dela. Houve uma colaboração muito forte com o
regime ditatorial, especialmente por meio das capelanias militares. Lá não
houve só conivência ou omissão: foi sobretudo colaboração. Os protestantes,
talvez pelos sérios conflitos que tinham com as instituições católicas
argentinas, se opuseram ao golpe e depois tiveram um papel importante na
resistência à ditadura.
Quais as dificuldades do trabalho do
grupo de pesquisadores?
Nosso campo de pesquisa e investigação é muito amplo. Não vamos
ter condições de cobrir essa amplitude, nem do ponto de vista geográfico, nem
temático, dentro do prazo previsto. As igrejas estavam presentes em toda a
extensão territorial do País. Teremos de fazer escolhas, buscar os casos
emblemáticos, mais representativos do comportamento das igrejas.
O senhor foi perseguido?
Sou metodista e participei do movimento ecumênico que, desde a
década de 1950, vinha discutindo politicamente reformas para o Brasil. Eu
defendia as reformas de base reivindicadas em 1964. Por causa de minhas
posições políticas e de minha militância na AP, fui preso em 1970 e permaneci
um ano na prisão. Após ser libertado, tive de viver na clandestinidade, quando
o cerco se fechou e fui obrigado a sair do Brasil. Passei pelo Uruguai,
Argentina, Chile. Com o apoio do mundo ecumênico internacional, mudei para os
Estados Unidos, onde vivi durante quase oito anos e, depois para Genebra,
passando a atuar no Conselho Mundial de Igrejas.
A.G.