terça-feira, 30 de julho de 2013

Miguel de Sousa: Gostava de ser presidente do Governo Regional da Madeira

Vice-presidente da Assembleia Legislativa da Madeira diz ter a certeza de que terá o apoio de Alberto João Jardim

Foi o número dois de Alberto João Jardim e, enquanto o líder regional não deixou o caminho livre, Miguel de Sousa esperou na sombra. Agora diz ter as condições para receber um legado de quatro décadas e inaugurar um "novo ciclo" na Madeira. Em dias de crise política, o gestor madeirense atribui a instabilidade no governo à "ambição desmedida" de Paulo Portas.

O executivo saiu fragilizado da crise do último mês?

Portugal não sai da crise, Portugal está em crise pelo menos desde o 25 de Abril. Fez-se uma revolução pela democracia e pela liberdade, criou-se a expectativa de que isso seria suficiente para fazer um país moderno e evoluído, mas Portugal ainda não conseguiu encontrar o sistema que possibilite governar-se.

É por isso que defende outra divisão de poderes?

Defendo um modelo presidencialista, em que o Presidente da República seja primeiro-ministro em simultâneo.

Cavaco Silva tentou ensaiar esse papel centralizador ao convocar os três partidos para um entendimento?

Chamar os três partidos devia ser uma atitude de há muito tempo e acontecer a um ritmo quase diário.

Porque é que as negociações falharam?

Não há maturidade política sequer para se fazer uma coligação. O Dr. Paulo Portas ia deitando o governo abaixo e acaba por quase parecer que foi o seu salvador. Não é verdade.

Como olhou então para este passo?

Paulo Portas é uma pessoa instável, que revela ambição desmedida e que percebe que através do CDS não vai conseguir. Quem é do CDS tem de pensar que tem a representação que tem. Não pode pensar em ter mais.
Mas o CDS sai claramente reforçado com esta mudança no governo.

Por fragilidade do sistema, talvez por fraqueza do PSD. Até agora não se percebeu que houvesse uma área económica do governo entregue à direita e ao liberalismo. Ela está entregue, vamos ver se resulta. Se resultar é sinal de que nestes 35 anos andámos todos enganados.

Com a remodelação, a coligação chegará a 2015?

Estou convencido de que chega. Pelas pessoas que entraram, estou certo que nenhum aceitaria entrar num governo de curto prazo. Terão garantias de que haverá entendimento para fazer alterações no âmbito da economia, com mudanças do IRC, do IVA?

Álvaro Santos Pereira também tinha essas bandeiras.

E falou muito bem, mas não teve um ministro das Finanças ou um primeiro--ministro que o deixasse concretizar. É por isso que se mudam políticos, uns têm mais força que outros.

São já três os nomes de quem se diz que já chegam fragilizados (Franquelim Alves, Maria Luís Albuquerque e Rui Machete) ao governo. Isto não enfraquece o executivo?

Se forem verdade os pecados que se vão apresentando, naturalmente que fere o governo e fragiliza o primeiro-ministro. Mas é preciso chegarmos à concretização das denúncias de actos difíceis de aceitar por quem presta serviço público. Se não forem verdade, têm toda a legitimidade para continuar.

A conquista de espaço do CDS no governo revela incapacidade política do primeiro-ministro?

É natural que a liderança actual do PSD tenha de aceitar mais do que quem estivesse numa outra posição de maioria. Para existir, e pelo que se percebe, a coligação tem de suportar as birras e os entendimentos do Dr. Paulo Portas. E parece que há quem aceite.

E o Presidente da República, como fica na história?

Depois de um acto espectacular que prometia o céu, o Presidente da República acabou por nos deixar na continuidade do purgatório em que vivemos.

Foram 20 dias perdidos?

O governo não esteve em funções da forma que estaria se não tivesse havido esta intervenção. Vinte dias são importantes num Estado, não é só a questão dos mercados, mas também a da paralisia em decisões. Foi um mês que toda a gente perdeu.

O governo está a meio da legislatura.
É possível avaliar se Passos Coelho terá condições para ser novamente candidato pelo PSD?

Falta muito tempo e depende também do interior do PSD. É no PSD que se afirmam os líderes que depois se candidatam ao governo.

E Passos Coelho ainda tem esse apoio interno?

O PSD não está à beira de eleições. Mas não me parece que tenha uma tradição de que, quando tem um líder de governo à sua responsabilidade, o vá deixar mal internamente e quebrar o seu trabalho no governo. Se o PSD perceber que o país continua a acreditar, o partido vai com certeza aceitar a continuidade do Dr. Passos Coelho.

E o país continua a acreditar nesta solução?

Não acredita, mas também não tem alternativa. O povo já acha que ninguém consegue pegar de forma credível e bem sucedida no governo de Portugal. O PSD será sempre uma boa solução para ter apoio dos portugueses a uma liderança do governo. Quer agora, quer no próximo futuro. O PS é que não tem porque está partido.

O PS saiu mal destas negociações?

Se uma pessoa põe as cartas na mesa e ninguém lhe dá aceitação... Ninguém está muito preocupado por se ter perdido uma oportunidade para as propostas do PS. São demagógicas, o governo não as pode concretizar de imediato. O que está aqui em causa não é apresentar programas eleitorais, mas propostas concretas para resolver os problemas do país.

O PS tem apresentado propostas concretas, quer no parlamento, quer agora, no decorrer das negociações.

Mas isso o CDS também fez. Tirou espaço que cabia ao PS preencher. Ao contestar o rumo de políticas que o governo implementou, ao discutir a posse da ministra das Finanças, fez aquilo que caberia ao PS, como oposição, e não uma parte da coligação.

O anterior ministro das Finanças definiu um programa de ajustamento para a Madeira com fortes implicações. Essa correcção está a resultar?

Não está, ainda que a Madeira tenha cumprido com todas as regras. O problema é a que custo para a vida dos madeirenses. A Madeira caminha mais para um beco do que para uma estrada, e isso tem um custo social muito elevado.

As condições de ajustamento não são adequadas?

São demasiado apertadas. As receitas actuais da Madeira são extraordinariamente reduzidas. E temos de pagar o funcionamento da actividade pública com esse dinheiro, mais o serviço da dívida. Temos de pagar saúde e escolas quando, pela Constituição, essa actividade é de responsabilidade nacional. Vão faltar verbas. Mas o que mais me preocupa é a Madeira ter a solução para as suas dificuldades, mas não poder ir adiante.

Que solução?

O centro de negócios da Madeira seria, por si só, suficiente para não termos qualquer dívida, e, mesmo tendo essa dívida, conseguirmos regularizá-la.

Já disse que houve uma espécie de garrote neste caso do centro de negócios (zona franca da Madeira, com benefícios fiscais às empresas).

Um garrote à Madeira, por não deixarem o centro ser competitivo relativamente a outros centros idênticos na Europa (Luxemburgo, Malta, a city de Londres). A Madeira só não pode fazê-lo por falta de vontade política da Assembleia da República. Ou o estado aceita criar e desenvolver um centro competitivo na Madeira ou assume a dívida pública. Não nos pode obrigar a pagar a dívida e não ir à procura das receitas.

Faz sentido caminhar-se para uma maior autonomização da região?

Sempre o pretendemos. Aquilo que se vive neste momento é uma autonomia fictícia. A Madeira é uma colónia com liberdade de expressão. Podemos dizer o que queremos, mas só podemos fazer o que Lisboa nos deixa. Estamos num paradoxo difícil de entender, porque a Constituição atribuiu autonomia às regiões autónomas, mas ela é, neste momento, fictícia.

Como acha que Lisboa olha para esta solução?

Eu percebo que se possa pensar que queremos autonomia fiscal para obter receitas para um novo forrobodó. Mas não. Nós temos de aceitar fazer um contrato com regras, com responsabilidade, para obtermos a tal autonomia fiscal de que precisamos.

Com que compromisso?

Comprometermo-nos aos limites da dívida, dos défices orçamentais e, a partir daí, determinar as receitas que possamos obter. Neste ciclo que agora tem de começar na Madeira, com certeza que o que se pretende é diferente das necessidades que houve antes.

O novo ciclo coincide com o pós-Alberto João Jardim? Ele já disse que em 2015 abandona a liderança na Madeira.

O congresso regional está marcado para Janeiro de 2015, há-de haver um novo líder e esse líder há-de começar um novo ciclo. Não se pode apostar na continuidade, não porque o que há esteja errado, mas porque a realidade é outra.

Miguel Albuquerque ficou bastante próximo de João Jardim nas últimas eleições regionais e há dias o senhor foi alvo de insultos num episódio que envolveu o líder parlamentar do PSD-Madeira. São sinais de que o partido está dividido em dois?

Não me parece que seja razoável conviver com a continuidade desse tipo de intervenção política. Há que mudar qualquer coisa e o comportamento dessas pessoas, que abusaram da tal maioria absoluta que permitiu tudo, já não é admissível. Mas o PSD não se vai dividir.

A divisão não se tornou já evidente, no último congresso?

Não esteve dividido. O Dr. Alberto João Jardim ganhou por uma pequena margem e o PSD continua. Nas autárquicas logo se há-de ver.

Mas não foi a expressão de uma vontade de mudança?

Percebeu-se que quase metade dos eleitores do PSD pretenderam substituir o Dr. Alberto João Jardim pelo outro candidato. Mas não conseguiram. E em política ganha-se por um, não há só vitórias esmagadoras. Diria que o voto que não foi no actual líder foi contestatário a uma situação que era liderada pelo Dr. Alberto João Jardim, mas que tinha a responsabilidade de muito mais gente que já ninguém suporta. Mas não acredito que o PSD esteja dividido.

Já no último congresso se esperava que o senhor avançasse. Será candidato à liderança do PSD-Madeira em 2015?

Sempre entendi que nunca iria "trair" o Dr. Alberto João Jardim. Enquanto ele se candidatasse eu não me oporia.

Ele disse que não se candidata em 2015.

Estamos em aberto. Pela minha formação de gestor e experiência política, acho que tenho condições para liderar o governo. Gostava muito de ser presidente do governo regional. Tenho condições para criar uma dinâmica que tire a Madeira das dificuldades e pô-la num rumo de algum conforto. Parece que para isso é preciso primeiro ser líder do PSD. Se assim for, a seguir às autárquicas tomarei uma decisão imediata.

Seria importante poder contar com o apoio de João Jardim?

É obvio que sim, mas tenho a certeza de que ele me apoia. Fui sempre o seu melhor aluno. É uma pessoa que entendo bem. Creio que reconhece as capacidades que tive no governo e as que tenho para desempenhar esse papel.

As autárquicas trarão dificuldades ao PSD? Ou a figura conta mais que o partido?

Em Lisboa não tanto. Pasma-me como aqui se consegue eleger uma pessoa em qualquer lado, independentemente de onde vem. Aqui as pessoas acabam por votar mais no entendimento da situação nacional do que no candidato do concelho em particular.

Concorda com estas migrações de autarcas que procuram contornar a lei que limita os mandatos autárquicos?

Eu não votaria num militante de outro concelho. Compreendo, na situação portuguesa, essa limitação de mandatos.

Limitação ao cargo?

Nas autarquias acho que deve haver. Não sou tanto pela limitação de mandatos, porque acho que a vontade popular deve prevalecer. Mas na mudança de concelho isso é ferir a lei. O entendimento de todos é que cada um se candidatava três mandatos e ia embora, mas parece que aqui se conseguem imaginar soluções só para resolver ambições, e algumas das quais nem são legítimas.

Em Lisboa e no Porto o PSD arrisca-se a não ter candidato em Setembro...

Será uma boa justificação para a derrota que se perspectiva. Pelo menos têm uma boa justificação para apresentar.


=Jornal i=

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